Opinião
Muito menos que um ensaio sobre a arte de bem escrever, num estilo sem pretensões que aproxima a professora de escrita criativa ao comum leitor que eventualmente procura, num livro deste tipo, os segredos que estão por trás de uma boa escrita no sentido literário do termo, num eventual piscar de olho a uma carreira de escrita principiante ou eventualmente até com algumas esperanças de vir a ser algo mais, «Ler como um Escritor» é como que um manual das regras básicas daquilo que muitas vezes escapa à maioria dos leitores e que funciona também como um conjunto de chamadas de atenção a qualquer escritor principiante.
Usando excertos de textos das mais variadas obras de um grande leque de autores, alguns dos quais bem conhecidos e imortais pela obra que nos deixaram, Francine Prose expõe os vários princípios que se devem ter na apreciação de uma narrativa, começando primeiro por evidenciar o cuidado em termos de leitura atenta que qualquer bom leitor deve ter, uma vez que este facilmente apanha determinados vícios de leitura que o impedem de apreciar verdadeiramente cada livro, quedando-se por uma série de automatismos e apreciações estereotipadas que criou ao longo do tempo, ficando inúmeras vezes com uma imagem pobre e enviesada daquilo que leu.
Após essa introdução, seguem-se vários capítulos, cada um dedicado a um tema em particular, sendo sempre usados abundantes excertos exemplificativos: Palavras, Frases, Parágrafos, Narração, Personagens, Diálogos, Pormenores, Gestos. Nas Palavras, de reter a escolha das palavras certas ou carismáticas para dar ênfase ou identidade única à narrativa. Nas Frases, o esforço do escritor em escrever frases que funcionem, boas frases, preocupação particular evidenciada por Hemingway, por exemplo. Na Narração, a identificação dos vários estilos em termos de uso do eu, tu, ele, ou uma mistura de várias vertentes e vários narradores numa mesma obra. Nos Parágrafos, a descoberta que a elaboração destes (onde começam, onde acabam) dá uma identidade única a cada escritor. Nas Personagens, as várias formas de construção de cada personagem e como esse processo pode tornar interessante quem à partida não teria qualquer interesse. No Diálogo, o que se diz e o que não se diz mas se intui - o diálogo não é senão o discurso que apenas pode sair da boca de um só personagem em toda a ficção e da mente de um só escritor. Nos Pormenores, a mensagem de que pensamos em generalidades, mas vivemos em pormenor - são estes a marca indelével de cada obra e dos quais nos lembramos na maioria das vezes em primeiro lugar. Nos Gestos, a importância destes como forma de compor e dar ritmo à narrativa - os gestos revelam frequentemente o inconsciente, mas há muitos casos em que estamos bastante conscientes dos nossos gestos, e essa consciência também é uma espécie de revelação.
Nos últimos capítulos, um deles inteiramente dedicado a Tchekov, Francine Prose faz o elogio de que num grande escritor as regras não existem, e que todas as regras que revelou até aqui podem ser ultrapassadas por um escritor de talento, como é o caso deste escritor russo do século XIX. Para terminar, revela-nos que o grande segredo em qualquer romance é o escritor saber criar interesse, não importa o estilo que use nem se vai contra todos os cânones literários. Evidentemente, escritores sem talento que se arrisquem demasiado em não cumprir certas regras sujeitam-se a escrever grandes desastres literários.
Em suma, um livro extremamente interessante para qualquer leitor que queira descobrir as suas lacunas ou insuficiências na forma como lê, ou para um escritor principiante que queira saber algumas das regras básicas que dizem o que não se deve fazer, ou, caso o faça, tem que ter noção de que precisa de estar à altura do desafio.
Mas, acima de tudo, o mais importante que este quase ensaio transmite é que, para bem ler e bem escrever, é preciso em primeiro lugar ler bastante, e de forma atenta, tal como fizeram a grande maioria de todos os grandes escritores imortais de todos os tempos.
Excerto
As aulas de leitura e a oportunidade de servir como uma espécie de chefe de claque da literatura agradavam-me. Gostava dos meus estudantes que, muitas vezes, se mostravam tão impacientes, brilhantes e entusiastas que levei anos a reparar na dificuldade que tinham em ler um conto razoavelmente simples. Quase ao mesmo tempo, fiquei impressionada pela pouca atenção que lhes tinham ensinado a prestar à linguagem, às palavras e às frases que os escritores empregavam. Em vez disso, haviam sido encorajados a formar opiniões fortes, críticas, frequentemente negativas, sobre génios que, há séculos, muito antes de eles terem nascido, eram lidos com apreço. Tinham sido treinados para perseguir, ou defender, tais autores como se estes se encontrassem num tribunal sob acusações relacionadas com as suas origens, raça, cultura e antecedentes sociais, e incitados a reescrever os clássicos em formas mais aceitáveis do que aquelas que os próprios escritores podiam ter descoberto, caso partilhassem o nível de discernimento, tolerância e consciencialização dos seus jovens críticos.
Não admirava, portanto, que os meus estudantes achassem tão difícil ler!