Opinião
No Tennessee dos anos trinta vive um homem solitário e vagabundo, Lester Ballard, que à força do mau convívio com outros homens desenvolve uma existência selvagem onde o crime faz parte da sua rotina diária, satisfazendo instintos naturais de uma forma sórdida e demente, à falta de um conjunto de afectos que não lhe são completamente desconhecidos em algumas atitudes ainda assim humanas e por vezes pungentes com que surpreende o leitor, porventura chocando-o face aos extremos contrários que pontuam a narrativa de vida desta personagem.
Morando numa casa a cair aos bocados, exímio atirador usando uma espingarda paga com o trabalho de enterro de setecentas estacas, torna-se o terror da região ao atacar e assassinar casais de amantes em carros isolados e fazendo desaparecer os seus corpos, manifestando um cuidado especial com os cadáveres das mulheres. Alguns amigos e respectivos familiares com quem trava contacto são também vítimas fatais do crescendo da sua raiva face à perseguição cada vez maior que lhe é movida, juntando-se a pouco e pouco um conjunto de indícios que permitam a sua efectiva prisão.
Com o passar da narrativa ganha-se uma certa empatia por este pária da sociedade, que sobrevive graças a um conjunto de engenhos e artifícios descritos de forma cuidada e detalhada, pontuada por episódios dispersos acerca do seu dia a dia, e de facetas várias desta personagem tal como vistas por outras ou na interacção com elas.
Um romance muito bem escrito, a exemplo de outros romances de Cormac McCarthy, que ilustra a que ponto pode chegar um homem que se vê privado de uma educação e de um convívio em sociedade, batalhando por uma vida igual (!) à de todos os outros, parecendo normal o seu comportamento como pérfida adaptação de uma mente sem direcção que obedece a um corpo de motivações naturais onde se incluem quer os instintos básicos quer a necessidade de calor humano que no fundo este homem persistentemente persegue de forma distorcida mas ainda assim claramente definida - um filho de deus.
Excerto
Estava uma noite fria e límpida. Os olhos de Ballard ergueram-se para o céu frio banhado de estrelas, espraiando-se para lá dos postes de iluminação no parque de estacionamento do hospital. Atravessaram o asfalto negro, húmido da chuva recente, e os homens abriram a porta de uma carrinha de caixa aberta e conduziram Ballard para o interior. Ele gatinhou pela cabina do condutor e sentou-se com as pernas nuas unidas à sua frente. Homens treparam para o interior de ambos os lados e o motor arrancou e as luzes acenderam-se e as luzes de outros carros e carrinhas brilharam pelo parque de estacionamento fora. Ballard teve que desviar os joelhos como uma criança para o condutor conseguir engatar a alavanca das mudanças. Saíram do parque de estacionamento e desceram a rua.
Onde é que vamos? Disse Ballard.
Ficamos todos a saber quando lá chegarmos, disse o condutor.