Opinião de Leitura
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Autor: Auster, Paul

Leitor:

Opinião

Uma colecção de enigmas dentro de enigmas, este pequeno romance de Paul Auster está centrado na figura de uma personagem que se encontra fechada num quarto e numa quase total amnésia em que, aos poucos e poucos, e fruto da leitura de um manuscrito e de várias visitas que tem ao logo de um dia, vai construindo os fracos alicerces da sua existência e do seu estado actual, supostamente vítima de um conjunto de acusações graves de um passado em que cometeu actos supostamente criminosos mas aparentemente necessários. Ironicamente intitulado Mister Blank, esta personagem revela-se de uma grande volatilidade e baralha constantemente o leitor na sua tentativa de construção de uma explicação consistente face aos factos que vão surgindo ao longo do romance, engenhosamente, ou talvez nem tanto, terminado de forma abrupta com uma explicação do autor (!) do porquê deste fim, num jogo de interpretação que não parece muito convincente face ao elevar constante das expectativas criadas que não merecia final tão linear e patéticamente pedagógico.

Independendentemente do final decepcionante, o livro mantém a boa qualidade habitual da escrita de Paul Auster, com uma narrativa cativante envolta em mistério, na qual se confunde a suposta história de Mister Blank com a da personagem do manuscrito que ele está a ler e que, a dado momento, é capaz de continuar mesmo depois de o manuscrito (que se encontrava incompleto) ter terminado. Um nó cego de encadeamento de enredos, confundidos ainda mais pelo aparecimento das outras personagens, e que poderia ser magistral não fosse a decisão abrupta de Paul Auster de dar o livro por terminado, dando ao leitor a oportunidade de o continuar tal como Mister Blank, truque literário engenhoso mas um pouco vulgar em comparação ao que Paul Auster já tinha habituado os seus leitores em livros anteriores.

Excerto

Quando larga a caneta, há uma palavra que começa a ressoar na sua cabeça, e, durante vários momentos depois disso, enquanto a palavra continua a ecoar dentro dele, Mr. Blank sente que está a um passo de uma importante descoberta, de um ponto de viragem crucial que ajudará a clarificar, pelo menos em parte, aquilo que o futuro lhe reserva. A palavra é «parque». Lembra-se agora de que, pouco depois de ter entrado no quarto, Flood sugeriu que fosse conversar para o «parque, do outro lado da rua». Esta indicação parece ao menos contrariar a prévia asserção de Mr. Blank segundo a qual se encontraria cativo, confinado ao espaço limitado por estas quatro paredes, impedido, para todo o sempre, de se fazer ao mundo. Sente-se algo encorajado por este pensamento, mas sabe também que, mesmo que o autorizem a visitar o parque, isso não prova necessariamente que seja um homem livre.

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