Opinião de Leitura
Mudança Mudança

Autor: Ferreira, Vergílio

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Opinião

«Os homem sonhavam-se deuses, porque só um signo de eternidade lhes justificava um passo, uma ideia». Carlos, membro de uma família relativamente próspera e recém formado advogado, recém casado com uma jovem simples de ideais muito práticos e objectivos assentes no quotidiano, entra num marasmo existencial após a falência do negócio do pai, o que acontece em simultâneo com a evidência constatada da perenidade e fragilidade dos ideais e valores que constantemente mudam mas ainda assim são base de disputas e lutas acérrimas entre os homens no afã sôfrego de assim justificarem a sua existência através da ilusória significação de algo maior que na maioria das vezes nem sobrevive às suas mortes.

Vítima também de uma tentativa de criar o seu próprio ideal que rápidamente se esvai, cúmplice ainda na participação em outros cujo entusiasmo apenas dura na embriaguez da acção imediata provocativa de uma ressaca culpabilizadora, Carlos volta-se cada vez mais para dentro de si mesmo num desespero altruísta de encontrar a verdade acima de todas as coisas. Fugindo de tudo, separando-se de Berta, enfrentando uma discussão de teor existencial profundo com Pedro, seu irmão e homem de visão extremamente prática e pragmática sobre a vida, esta apresenta-se cada vez mais cristalina na perspectiva de que todo o homem prático aceita a inevitabilidade da perenidade de tudo a que a envolve e tira o melhor partido de cada situação e etapa da vida, mergulhando nas suas ilusões, em contraste com o homem filosófico que nunca conseguirá conciliar o seu destino e existência llimitados como ser humano vulgar como todos os outros com a sua suposta sabedoria que se transforma num fardo que o impede de uma real fruição do seu viver.

Condenado a adaptar-se, voltando de novo a viver com Berta e a reintegrar-se no seu meio social, o destino de Carlos encontra-se preso por um fio numa relação incompatível com alguém que não se conforma com a mudança de Carlos de homem são e normal para algo que não vive nem deixa viver pelo que a solução (para quem?) pode passar por um bocado de pó de veneno para ratos...

Excerto

Ao deitar, Carlos reviu a sua trágica insegurança, o constante logro dos homens. Ali, do alto da rampa vencida pela humanidade, ouvia o rumor das lutas, a glória dos triunfos, os arrancos dos sonhos na agonia. Que era a verdade? Pedro declarava que cada época forjava a sua e que nos restos das muitas verdades se endurecia a do tempo novo. Dispunha em esquadrões as forças para o combate. Entre as lanças vencedoras criava um novo inimigo. Pegava fogo a outra luta, e sabia já que o destino do mundo seriam sempre vários caminhos fechando para um, um caminho abrindo para muitos. E sempre assim, sem parar, sempre assim, sempre a mudança. Que fazer do anseio humano? Se eu luto, é para um fim. O que fizer será um meio para atingi-lo. Mas trepado ao fim, eu descobrirei nela apenas um «meio» para atingir «outro fim», que será por sua vez apenas um «meio» e assim ao infinito. Quando apontássemos à idade de ouro, a meta seria um sinal de morte. Mas a minha coragem só chega até ao FIM. Ao único.

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