Opinião de Leitura
Debaixo do Vulcão Debaixo do Vulcão

Autor: Lowry, Malcolm

Leitor:

Opinião

A história do último dia de vida de um bêbedo poderia resumir de forma depreciativa este fabuloso romance dividido em doze capítulos, que traça a narrativa, roçando a epopeia, de um homem que necessita da bebida para se manter lúcido, lucidez estranha que se manifesta de uma forma mística como se se tratasse de um estado superior à normal vivência do homem. Este homem, ex-Cônsul inglês no México, recebe a visita inesperada da sua ex-mulher, a ex-actriz Yvonne, e do seu meio-irmão (e ex-jornalista e ex-músico) Hugh que em tempos também foi amante de Yvonne, e juntos fazem uma pequena viagem que passa pela casa do ex-Cônsul, pela casa de outro admirador de Yvonne, o ex-cineasta Laruelle, por uma feira, por uma rocambolesca viagem de autocarro, por uma tourada e muitas tabernas. De bebida em bebida, de confissão em confissão, de memória em memória, em divagações e também muitas alucinações onde o real se confunde com a ficção, num estilo muitas vezes poético, e com muitas cartas de amor desencontradas à mistura, torna-se obscuro o desenlace amoroso de reconciliação que se vai prevendo entre o ex-Cônsul e Yvonne, este em constante oscilação face a uma opção que no fundo não quer tomar, esta num beco sem saída em face de um ideal de vida que não quer abandonar e que depende inteiramente do ex-Cônsul, e juntos vão adiando continuamente algo cujo processo acabará em tragédia para ambos.

Goethe disse acerca do cavalo: «Cansado de liberdade, consentiu que lhe impusessem uma sela e um freio, e deixou-se montar até morrer de sofrimento». Algures em «Debaixo do Vulcão», a par da máxima «não se pode viver sem amar», surgem estas ideias-chave que dão o mote a toda a narrativa, se é que assim se podem chamar dada a heterogeneidade e multiplicidade de interpretações passíveis neste romance que tem que ser abordado com um cuidado especial, dado a sua densidade e diversidade de estilos e ritmos de narrativa que se entrecruzam entre si, obrigando a uma concentração reforçada que contudo não dispensará a sua releitura ou, pelo menos, do primeiro capítulo (que funciona também como epílogo), dada ainda a riqueza de significados e simbolismos que se podem extrair deste grandioso romance, que de certa forma compete em termos de complexidade de estrutura com o famoso «Ulisses» de James Joyce. A primeira leitura pode-se revelar um pouco frustrante se não se atentar a este facto, e o livro torna-se de facto cada vez mais interessante quanto mais vezes se voltar ao mesmo, seja a que capítulo for.

Um livro a evitar se se pretende uma leitura rápida, simples e descontraída; um livro indispensável se o leitor se predispuser a ter o tempo suficiente para o ler com atenção e de o reler vezes sem conta a fim de extrair o máximo de um todo que nunca se alcança de um livro que tem sido considerado por muitos críticos como dos melhores livros escritos no século XX.

Comentários

Do prefácio, pelo próprio autor, Malcolm Lowry: Este romance tem como tema, para usar a frase de Edmund Wilson, as forças que habitam no interior do homem, e que o levam a assustar-se consigo próprio. O tema é também o da queda do homem, o dos seus remorsos, e do seu incessante combate para alcançar a luz, sob o peso do passado, ou do seu destino. A alegoria é a do jardim do Éden, e o jardim representa este mundo, de que corremos o risco de ser expulsos, talvez mais agora do que na altura em que escrevi o livro. Num desses muitos planos de significação, a bebedeira do Cônsul deve simbolizar a bebedeira universal durante a guerra, ou durante o período que a antecedeu, ou em qualquer altura. Ao longo dos doze capítulos o destino do meu herói pode ser considerado em relação com o destino da humanidade.
(...) O livro situa-se em diferentes planos. A minha intenção foi a de clarificar, na medida do possível, aquilo que a princípio me surgira de uma maneira complicada e esotérica. Este romance pode ser lido simplesmente como uma história no decurso da qual o leitor pode saltar passagens, mas que desfrutará muito mais se o não fizer. Pode ser considerado como uma espécie de sinfonia, como uma ópera, ou como um filme de cowboys. Eu quis fazer música hot, um poema, uma canção, uma tragédia, uma comédia, uma farsa, e assim sucessivamente. É superficial, profundo, distraído, pesado, segundo os gostos de cada um. É uma profecia, uma advertência política, um criptograma, um filme cómico, um absurdo, uma frase escrita na parede. Pode ser considerado uma espécie de máquina: funciona, acredite, descobri-o à minha custa. No caso de suspeitar que fiz qualquer coisa excepto um romance, responder-lhe-ia que afinal de contas a minha intenção foi a de escrever um verdadeiro romance, de facto um romance endiabradamente sério.

Excerto

O Cônsul não estava realmente a falar. Pelo menos, não parecia que estivesse. Não articulara uma palavra que fosse. Era tudo uma ilusão, um redemoinhante caos cerebral do qual, saiu por fim, nesse mesmo instante, bem ordenado e completo, o seguinte:
- O acto de um louco ou de um bêbedo, camaradão - disse - ou o de um homem submetido a uma violenta excitação parece menos livre e mais inevitável para aquele que conhece a condição mental do homem que praticou a acção, e mais livre e menos inevitável para aquele que a não conhece.
Era como uma peça ao piano, era como aquela peçazita em sete bemóis, tocada apenas nas teclas pretas. Era por isso, mais ou menos - lembrava-se agora - que ele tinha ido para o «excusado»; em primeiro lugar para se lembrar, para se assenhorear do assunto - era talvez também como o caso da citação que Hugh fizera de Matthew Arnold a respeito de Marco Aurélio, como aquela peçazita que ele aprendera com tanto custo havia anos, apenas para a esquecer sempre que tinha especial empenho em tocá-la, até que um dia se embebedara de tal maneira que os dedos se lembraram por si mesmos da combinação musical, revelando-se miraculosamente, em sua perfeição, em toda a riqueza da melodia; simplesmente aqui Tolstoi não fornecera a melodia.
- O quê? - perguntou Hugh.
- De modo algum. Eu volto sempre ao ponto conveniente e retomo o assunto onde o deixei. Se não fosse assim, como é que eu me havia de ter mantido tanto tempo no meu lugar de cônsul? Quando nós não compreendemos nada das causas de um acto - digo isto para o caso em que o teu espírito tenha vagueado através da tua própria conversação pelos acontecimentos desta tarde - atribuímos essas causas, quer viciosas, quer virtuosas, de acordo com Tolstoi, ao predomínio de um elemento da vontade independente. Segundo Tolstoi, portanto, devíamos ter tido menos relutância em interferir do que tivemos...
- Todos os casos - sem excepção - nos quais a nossa concepção de livre vontade varia, dependem de três causas - prosseguiu o Cônsul. - Não podemos fugir a isso. Além disso, segundo Tolstoi - antes de julgarmos um ladrão - se é que realmente de um ladrão se trata - teríamos de perguntar a nós próprios quais eram as suas relações com outros ladrões, quais os seus laços de família, o seu lugar no tempo e, se até isso conseguíssemos saber, quais as suas relações com o mundo externo e com as consequências que o levaram a actuar...

Publicidade

Inspirações

O Desejo e a Posse

Publicidade

© Copyright 2003-2025 Citador - Todos os direitos reservados | SOBRE O SITE