Opinião
Um romance que se caracteriza por uma escrita plena de sensibilidade e sentimento alicerçada em vários narradores através dos seus monólogos, sendo um misto de homenagem ao Padre António Vieira e um processo de aprendizagem do verdadeiro amor, pautado pela crítica aos costumes portugueses de todos os tempos e a desmistificação da fé como doutrina ultrapassada, «A Eternidade e o Desejo» relata a viagem de retorno de Clara ao Brasil numa excursão que segue as pegadas do grande mestre que por aí passou há três séculos atrás. Acompanhada por um amigo que não lhe dá tréguas nas suas declarações de amor mas por quem sente demasiadas afinidades para o poder amar, Clara persegue a redenção de outro amor em virtude do qual ficou cega há uns anos atrás nesse mesmo país, soltando a pouco e pouco a amargura que a sua natureza portuguesa acentuava, e libertando-se para abraçar um amor sem amarras num ideal de vivência maior que o seu pobre amigo nunca compreenderá.
Uma mulher cega que vê mais que os outros que vêem, iluminada pelos escritos do Padre António Vieira dos quais surgem vários excertos ao longo do livro perfazendo um caminho que a leva do cinzentismo do quotidiano Português para uma vida mística num Brasil que, não obstante os seus contrastes e indefinições, ou talvez por isso mesmo, oferece um alargar de horizontes próprios de um povo que soube misturar os costumes e crenças de várias raças e classes sociais, e onde a leitura de Deus pode tomar as mais variadas formas numa consagração plena de alma e corpo, onde cada um, inclusivamente os agnósticos, se complementa entre o desejo e a eternidade, vivendo o presente ao máximo sem o rancor do passado nem a ansiedade do futuro.
Excerto
Em frente à varanda do nosso hotel está um homem sentado a ler, encostado a um cartaz que diz: «Vamos mudar o mundo». Dizes que não sabias que ainda se escreviam coisas destas. Ainda bem que se escrevem coisas destas, Sebastião. Que seria de nós sem a banalidade da utopia? Afirmas que os que querem mudar o mundo, assim de uma vez só, acabam inevitavelmente por o tornar pior. Digo-te que nem todos. Lembro-te outra vez António Vieira: mudar, aperfeiçoar, ter noção dos limites e das responsabilidades, viver em função do outro porque é no outro que somos melhores. Argumentas que isso é muito cristão. E muito comunista. E um bocadinho pedagógico. Repetes: Clara, Clara. Perguntas se não poderia eu deleitar-me com algo mais moderno. Decides que o Padre António Vieira, com os seus delírios de um Quinto Império, é uma figura de alucinado. Um doido. Digo-te que não há nada mais moderno que a loucura. Acrescento que essa tua fé no absoluto da ciência, essa convicção de que a vida pode ser entendida a partir do microscópio, também pode ser uma loucura. Ou uma fraqueza. Falas das intuições de António Vieira como de charlatanices, Sebastião, e isso é-me insuportável. O seu sonhado Quinto Império pode parecer-nos hoje muito datado, mas a forma como ele o descreve e o ideal que nele representa é muito mais vasto do que isso. A tua perspectiva puramente visual dá-me raiva, Sebastião.