Opinião de Leitura
O Que é a Filosofia? O Que é a Filosofia?

Autor: Ortega y Gasset, José

Leitor:

Opinião

Um curso de filosofia em género de ensaio, uma dissertação acerca da necessidade da filosofia escalpelizando todas as abordagens já tomadas no passado e qual a via que se deve tomar (segundo Ortega y Gasset) aprendendo com todos os erros cometidos pelos maiores filósofos, este livro é uma obra magistral no sentido em que, numa linguagem muito acessível e dirigindo o leitor por dentro dos conceitos filosóficos mais complexos sem grande esforço, por um lado consolida toda uma história da filosofia em poucas páginas ligando todas as eras e abordagens, e por outro coloca a filosofia de forma acessível e prática por forma a que esta sirva, de facto, na sua plenitude (como a filosofia deve ser), para ajudar qualquer pessoa a ter uma visão mais abrangente do que significa existir e viver, num sentido prático e palpável.

O livro está dividido em onze capítulos, e estes agrupados no que o autor chama voltas (quatro) - defendendo que a melhor aproximação à filosofia é por círculos concêntricos -, este aborda várias vezes os mesmos temas mas a cada nova volta sobre outros ângulos que, no final (na última volta) culmina na apoteose de criação de uma nova teoria filosófica que se baseia em todas as anteriores (mais concretamente, o autor divide a história da filosofia nas eras da antiguidade - até Descartes - e da modernidade - a partir de Descartes) mas que supera os erros básicos em que assentaram os princípios das mesmas. E que, para mais, é uma filosofia prática e facilmente entendível.

Numa desmistificação completa de vários conceitos enraizados na mente das pessoas, demonstrando que cada geração vive um momento único e por este é influenciado na sua conduta e nas suas ideias mesmo que se julguem ou possuidores de toda a verdade, ou completamente acima dos seus contemporâneos, Ortega y Gasset chega à tese do viver como base de uma teoria filosófica, abordada de uma forma ligeira (remete o aprofundamento teórico para outros ensaios seus) mas suficientemente sustentada, que convence pelas suas ideias-chave e abre os horizontes ao homem comum, que, lendo este livro, fica com ideias arrumadas relativamente às várias abordagens do conhecimento do Universo (que não apenas a Filosofia), ao seu percurso Histórico, aos seus erros, e a uma nova via de encarar as questões existenciais que engloba as boas ideias dos mais antigos e uma abordagem mais completa ao entendimento da nossa vida, do eu face ao mundo.

Como apêndice, segue um resumo da estrutura do curso, através de um conjunto de notas que revelam a cronologia de ideias-chave do mesmo, nas suas várias voltas e respectivos capítulos:

Primeira Volta - O lugar da Filosofia e a desmistificação das verdades universais

O objectivo do curso é submeter a filosofia a uma análise. A filosofia é diferente de geração para geração. Não há relação entre as verdades e o tempo. As variações do pensar ao longo da História. 1840 a 1900 foi uma das temporadas menos favoráveis à filosofia, devido ao emergir da Física como grande ciência.

O processo de adopção de novas ideias. A coetaneidade - o facto de em cada geração viverem três gerações em simultâneo. A filosofia ao serviço da Física no final do século XIX.

A filosofia não é uma ciência porque é muito mais. A verdade é histórica - cada geração parte de supostos mais ou menos diferentes. A percepção determina o caminho da ciência.
A filosofia busca precisamente como realidade o que é com independência das nossas acções, o que não depende delas; pelo contrário, estas dependem da realidade completa daquilo.
A libertação da filosofia no século XX. O reconhecimento das limitações da Física - cada ciência trabalha dentro das suas limitações.
A necessidade e lugar da filosofia - a filosofia como conhecimento do Universo.

Segunda Volta - A Filosofia face a outras abordagens do conhecimento do Universo

Exactidão (ciência) não significa verdade. A filosofia é uma coisa... inevitável. Definir com rigor o problema da filosofia. Em ciência não há problemas (pois estão circunscritas a princípios de base). A filosofia é a única que coloca o problema absoluto.
O horizonte da filosofia - a filosofia é conhecimento do Universo ou de tudo quanto há, mas ao partir nem sabemos o que há, sem se o que há forma Universo ou Multiverso, nem se, Universo ou Multiverso, será cognoscível.

A necessidade da filosofia (com três exemplos dessa necessidade). Filosofia e religião. A filosofia é uma ciência sem suposições - toda a filosofia é paradoxal. Queremos uma filosofia que seja filosofia e nada mais (liberta das ligações às ciências). Um filósofo é um especialista em Universos.
Misticismo - o saber místico é intransferível e silencioso. Misticismo versus filosofia. É preferível a Igreja ao misticismo.

A inteligência não é o fundo do nosso ser. A filosofia não deve ser levada a sério (pelos curiosos), mas sim como desporto - jogo, divertimento, cultura é a actividade mais séria para nós, os homens.
Resumindo as duas primeiras voltas: após confrontar a filosofia com as ciências, o misticismo e a religião, e colocar a filosofia no seu lugar, de uma vez por todas a filosofia é conhecimento do Universo, deve ser autónoma e total.

Terceira Volta - Os erros das abordagens filosóficas do passado

Verdade versus evidência. Positivismo. Presença e sensualidade. A filosofia (deve ser) baseada na intuição. Filosofia: a evidência intuitiva. As três classes de coisas: as que não sabemos que existem, as que pensamos que existem mas não existem, e as que existem mesmo.
A glória específica do homem saber que não sabe - isto faz dele o animal divino carregado de problemas.

O Mundo não tem existência evidente. A dúvida é a base da filosofia. Descartes - a fronteira entre os antigos/medievais e a modernidade. Basta o acto de pensar para provar que o pensar existe. O Idealismo.
O mundo antigo só conhece um modo de ser que consiste em exteriorizar-se. O pensamento cartesiano consiste, opostamente, em ser para si. Se a consciência é intimidade, é ver-se e ter-se a si próprio - ficamos sós no Universo, solidão radical... nem a filosofia da antiguidade (virada para o exterior) nem a filosofia da modernidade (virada para o interior) são soluções para uma abordagem total ao Universo.

O mundo é minha representação - o erro de Schopenhauer. Estados de subjectividade.
O homem antigo desconhece a interioridade. O homem moderno desconhece a exterioridade.
A primitividade da filosofia grega, tudo está no exterior. Subjectividade - o aspecto negativo (cepticismo) e o positivo (cristianismo).
Não basta agudeza intelectual para descobrir uma coisa nova.
Cristianismo e a filosofia moderna - o cristianismo é o descobridor da solidão como substância da alma. Santo Agostinho - a ideia da consciência, que amadurece na idade média - e Descartes. A modernidade nasce da cristandade.

Superar o Idealismo. O Idealismo era uma teimosa e tenaz marcha contra o curso da vida e era um insistente, pedagógico fazer-nos constar que viver espontaneamente, pela sua própria essência, era padecer um erro, uma ilusão óptica. O Idealismo desvitalizou a vida. Resumo das abordagens limitadores seguidas pela filosofia antiga (Grega) e a moderna (iniciada com Descartes).

Quarta Volta - Uma nova Filosofia

Xeque-mate ao Ser de Platão, Aristóteles, Leibniz, Kant e Descartes. O pensamento existe por ele mesmo - o erro de Descartes. Eu não sou senão o que me parece que sou - a falácia de Schopenhauer.
O erro do Idealismo - as coisas não dependem apenas da minha subjectividade (Idealismo), a minha subjectividade depende também de que existam objectos.
Se existe o pensamento existem, ipso facto, eu que penso e o mundo em que penso, e existe um com o outro, sem separação possível.
Facto primário: existencia conjunta de um eu ou subjectividade e o seu mundo.
Além do Idealismo chegamos... à minha vida.

Consolidação da tese do viver como abordagem total da filosofia.
Existir é primordialmente coexistir - é ver eu algo que não sou eu, amar eu outro ser, sofrer eu das coisas.
O ser estático (das filosofias antigas) vai ser substituído por um ser actuante.
Vida é o que somos e o que fazemos.
Viver é o que fazemos e se passa connosco.
Todo o viver é viver-se, sentir-se viver, saber-se existindo.
Viver é, além do mais, uma revelação, um não contentar-se com ser mas compreender ou ver que se é, um inteirar-se.
Viver é achar-se cada qual a si mesmo num âmbito de temas, de assuntos que o afectam.
Vida é, pois, a liberdade na fatalidade e a fatalidade na liberdade.
A nossa vida é o nosso ser.
Viver é constantemente decidir o que vamos ser.
Vida é futurição, é o que ainda não é.

O espírito, para viver, necessita de assassinar o próprio passado, mas ao mesmo tempo ressuscitar o que mata.
Novo resumo da superação sobre a antiguidade e a modernidade - achamos que não é a consciência, o sujeito - mas a vida, que inlui, além do sujeito, o mundo. Desta maneira escapamos ao Idealismo e conquistamos um novo nível.
O "encontrar-se", "inteirar-se", ou "ser transparente" é a primeira categoria que constitui o viver.
O dever é uma coisa importante, mas secundária - é o substituto, o ersatz da ilusão. É preciso que façamos pelo menos por dever o que não conseguimos fazer por ilusão.
O "si mesmo" não é somente o sujeito mas também o mundo. Apercebo-me de mim no mundo, de mim e do mundo - isto é, além do mais, "viver".
Definimos o que é doutrina filosófica e avançamos até encontrar a vida; mas só a partir de agora podemos responder a "O Que é a Filosofia?".
Que é, como viver, filosofar? Já vimos vagamente que é um desviver - um desviver-se por quanto há ou o Universo, - um fazer de si lugar e oco onde o Universo de conheça e reconheça.
A nossa vida decide-se a si mesma, antecipa-se.
A vida está sujeita a uma outra categoria do viver, as circunstâncias.
Vivemos no presente, no instante actual, mas não existe primariamente para nós, posto que a partir dele, como de um solo, vivemos assim o imediato futuro.
Todo o viver é um incessante, original preferir e desdenhar.
O decisivo não é a soma daquilo que fomos, mas do que ansiamos ser: os impulsos, o anseio, a ilusão, o desejo. A nossa vida, quer queiramos quer não, é na sua essência mesma futurismo.
A beleza da vida está precisamente não em que o destino nos seja favorável ou adverso - já que é sempre destino -, mas na gentileza com que o enfrentemos e talhemos da sua matéria fatal uma figura nobre.
O eterno ideal do débil: fazer o que faz toda a gente é a sua preocupação.
Vida é preocupação, e é-o não somente nos momentos difíceis, mas é-o sempre e, em essência, não é mais do que isso: preocupar-se em cada instante no ter que decidir o que vamos fazer no instante seguinte, o que vai ocupar a nossa vida. É, portanto, ocupar-se antecipadamente, é preocupar-se.

A vida é pressa. A vida é absoluta convicção. Todas as convicções fundamentais se tornaram problemáticas. Então volta-se à filosofia.

Comentários

Da Nota Preliminar do editor Paulino Garagorri: «A importância deste curso na Obra de Ortega y Gasset, enquanto exposição do seu pensamento filosófico, é relevante e o seu texto figurará entre os seus livros capitais. Tanto na sua data original como ao editá-lo em 1958 entre as suas Obras Inéditas obteve uma ressonância e um apreço excepcionais. Embora, certamente, só possa representar o pensamento do autor numa data que significa uma fase do seu desenvolvimento - "primeira maturação" lhe chama Ortega -, as páginas do O Que é a Filosofia? contêm um dos testemunhos mais inequívocos da originalidade e radicalidade com que Ortega y Gasset enfrenta todo o passado da filosofia e, precisamente apoiando-se na sua longa história, promove a "reforma radical da filosofia" que é o argumento de toda a sua obra».

Excerto

O que eu gostaria de fazer é todo o contrário de uma introdução à filosofia: é considerar a própria actividade filosófica, o filosofar mesmo e submetê-lo radicalmente a uma análise. Que eu saiba, isto não se fez nunca, embora pareça mentira; pelo menos, não se fez com a resolução com que vamos agora juntos tentá-lo. Como vedes, longe de ser um tema dos que costumam considerar-se próprios do interesse geral, é um assunto que, para já, parece o mais técnico e gremial, próprio só para filósofos. Se, quando o formos manipulando, tropeçarmos com temas mais sugestivos e humanos, se subitamente na rigorosa pesquisa do que seja a filosofia, portanto, que ela seja a ocupação particular e privativa dos filósofos, caímos por armadilha no mais humano do humano, na entranha cálida e palpitante da vida, e ali nos importunam deleitavelmente problemas da rua e até da alcova, será porque tem de ser assim, porque o exige precisamente o desenvolvimento técnico do meu problema técnico, não porque eu os anuncie nem os busque ou premedite. Somente anuncio todo o contrário: um estudo monográfico sobre uma questão hipertécnica. Fico, pois, livre e podendo fazer o que quero para não renunciar a nenhuma das asperezas intelectuais que impõe um propósito assim. É evidente que hei-de fazer o esforço mais leal para que todos vós, mesmo sem um adestramento prévio, seja claro tudo o que eu disser. Sempre acreditei que a claridade é a gentileza do filósofo e, além disso, esta nossa disciplina tem como ponto de honra, hoje mais do que nunca, estar aberta e porosa a todas as mentes, diferente das ciências especiais, que cada vez mais com maior rigor, interpõem entre o tesouro das suas descobertas e a curiosidade dos profanos o dragão medonho da sua terminologia hermética. Penso que o filósofo tem que levar até ao limite de si próprio o rigor metódico quando investiga e persegue as suas verdades, mas que ao emiti-las e enunciá-las deve evitar o uso cínico com que alguns homens de ciência se comprazem, como Hércules de feira, em ostentar diante do público os biceps do seu tecnicismo.

Publicidade

Inspirações

O Tamanho do Homem

Publicidade

© Copyright 2003-2025 Citador - Todos os direitos reservados | SOBRE O SITE