Opinião
Três amigos, três génios, três fanáticos obcecados pela perfeição, três personagens anti-sociais ao mais alto nível, Glenn Gould, Wertheimer e o narrador, travam conhecimento num curso elitista de piano só ao alcance dos maiores talentos. Glenn Gould rapidamente se torna o preferido do professor, Horowitz, perante o qual e inclusivamente perante os seus colegas transparece a genialidade a um nível a que nenhum outro jamais conseguirá chegar, e que se materializará numa projecção mediática a que ele próprio colocará cobro, vítima do seu perfeccionismo obstinado que leva a um isolamento fanático e caprichoso de consequências fatais. Wertheimer, o náufrago que abomina tudo e todos, repudiando inclusivamente a família, vive recluso e aposta tudo numa carreira de virtuoso do piano que desaba assim que conhece o génio de Glenn. Não contente em ser o segundo melhor, Wertheimer leiloa o seu piano, a exemplo do narrador, que oferece o seu a uma filha de um professor da província por também não sentir valer a pena ser o segundo melhor.
Entre a morte de Glenn e o suicídio de contornos macabros de Wertheimer não dista muito tempo, e é no rescaldo desse suicídio que se dá a acção desta história, com o narrador de viagem à casa do falecido Wertheimer num monólogo onde retrata a difícil relação dos três amigos (que viveram juntos durante o curso de Horowitz) com a vida, cada um deles exibindo perturbantes rupturas sociais e personalidades tão extravagantes quanto diversas entre si: um Glenn que vive apenas para as "Variações de Goldberg" e morre após milhões de aperfeiçoamentos, mas que conheceu o sucesso e reconhecimento pelo que de certa forma se realizou; um Wertheimer que acaba por ser a figura principal do romance e que, após o abandono do piano, se dedica às “ciências do espírito”, com anos e anos de escrita infrutífera nunca passando, segundo o próprio, na melhor das hipóteses, de um aforista pseudo-filósofo; e um narrador, que, abandonando também a música, se dedica mais tarde à escrita de uma obra sobre a genialidade de Glenn Gould mas que nunca a termina, insatisfeito após cada nova tentativa de reescrita, vítima do seu perfeccionismo doentio mas que expõe os tortuosos caminhos pelos quais passa qualquer candidato à genialidade.
Entre o elitismo próprio dos génios, a angústia das elevadas expectativas nunca alcançadas, e o contraponto com as pessoas que não pertencem a esse círculo, o confronto dos próprios com a riqueza (que as três personagens do romance usufruem) gera uma via de escape que, soando a diletantismo, é bastante diferente disso na medida em que o estado de desespero existencial e vivência limitada transparece nos comportamentos estranhos e muitas vezes repugnantes que mais despertam compreensão e compaixão que propriamente indignação.
Um romance de teor depressivo não só pelo carácter das suas personagens mas também pelo extremismo das suas opiniões de desprezo sobre os outros e pelas fortes críticas que fazem à sua pátria, a Áustria. No entanto é escrito de forma superior e num ritmo sedutor que toma e retoma os mesmos temas e episódios da acção vezes sem conta mas sempre sobre diferentes perspectivas, sem nunca aborrecer pela repetição num estilo muito próprio do grande escritor que é Thomas Bernhard, mestre na elaboração de um longo monólogo sem paragens que vicia a leitura entontecendo o leitor ao ponto de este ficar mesmo impregnado (e infectado?) na pele do narrador.
Resumindo, um romance onde a genialidade é exposta nos seus aspectos mais negativos, e onde a obra dos grandes mestres que fica para a posteridade é também colocada em causa (em especial a literária ou filosófica), numa alegoria de aprisionamento nas estantes onde estes ficam ridicularizados gritando em desespero para que os soltem, incompreendidos que foram em vida, e castigados para a eternidade como meros bibelots recordados por uma ou duas frases que proferiram.
Excerto
O nosso amigo foi a nossa morte. Éramos mesmo melhores do que todos os outros que estudavam com o Horowitz, mas o Glenn era melhor do que o próprio Horowitz, ainda o estou a ouvir dizer isto, pensava eu. Mas por outro lado, disse ele, nós estamos ainda vivos e ele não. Ainda que muitos à sua volta tivessem entretanto morrido, muitos parentes, amigos e conhecidos, nenhuma dessas mortes o tinha impressionado minimamente, mas a morte do Glenn tinha sido para ele um golpe mortal, e esta palavra mortal tinha sido proferida por ele com uma precisão terrível. Não é necessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa, disse ele. A morte do Glenn tinha-o atingido profundamente, disse ele, pensava eu ali no meio da estalagem. Ainda que essa morte fosse inteiramente previsível, fosse até o que há de mais evidente, assim disse ele. E no entanto não a concebemos, não a entendemos, não a concebemos. O Glenn tinha uma grande predilecção pela palavra e pelo conceito de náufrago, lembro-me perfeitamente, o náufrago tinha-lhe ocorrido na Sigmund Haffnergasse. Quando olhamos para as pessoas só vemos mutilados, por fora ou por dentro, disse-nos uma vez o Glenn, ou mutilados por dentro e por fora, não há senão gente assim, pensava eu. Quanto mais tempo olhamos para alguém tanto mais mutilado nos parece, porque é mais mutilado ainda do que nós podemos admitir, mas é essa a realidade. O mundo está cheio de mutilados. Andamos na rua e só encontramos mutilados. Convidamos alguém a visitar-nos e ficamos com um mutilado em casa, assim dizia o Glenn, pensava eu. Na realidade eu próprio fiz diversas vezes essa observação, e não me restava senão concordar com o Glenn.