É sempre muito difícil escrever sobre um livro de poesia que li – principalmente para quem não pretende desfiar teorias e conceitos linguísticos de carácter catedrático, nem tão pouco sob o ponto de vista da crítica literária –, por três razões importantes: primeiro, considero que a poesia é uma arte que tem várias interpretações dependendo do ângulo em que é apreciada. E se na arte da escrita há vários ângulos de leitura e interpretação, é na poesia que eles nunca se esgotam. Segunda razão, é-me bastante difícil recolher os estilhaços espalhados das imagens, sensações e sentimentos condensados que explodem depois de abrir um livro de poesia e de o ler. Há sempre várias peças que me vão faltar, algo que numa primeira leitura me escapa sempre, e que vou apreender em sucessivas leituras posteriores, muito mais que num romance, por mais lírico este seja. E terceiro, sendo a poesia uma peça de arte, não imagino um livro deste género enfiado no fundo escuro das estantes: como a pintura ou como a música, tem que estar continuadamente exposta para uma melhor compreensão, há que ouvi-la as vezes que forem necessárias para percebermos aquela nota, aquele acorde que nos falhou.
Temos assim condensada em cerca de 45 páginas a poesia do livro de estreia de Alice Macedo Campos, o ciclo menstrual da noite, condensada a tal ponto que, se a autora quisesse escrevê-la num discurso romanesco, as páginas quadruplicariam, porque cada palavra concebe uma dezena de outras que por sua vez já nascem prenhas de outras tantas. O ciclo começa na água, elemento maternal e intra-uterino do mundo e dará a sua volta completa com o retorno do corpo à humidade da terra, lugar onde se decompõe os corpos sem que nunca morram de facto. A morte, aliás, habita em todo livro não como uma ameaça ou um fim, mas significando o fluxo menstrual até que o corpo se restabeleça. Levanta-se um aroma de terra com a espessura do sangue, e entramos pausadamente dentro desse corpo feminino e maternal, reconstruindo-se das sombras, das insónias, dos frémitos e dos desejos, à procura da limpeza inicial nas entranhas da noite.
No prefácio assinado por Joaquim Fernando Fonseca, devo destacar uma passagem que me parece importante para a compreensão integral do livro e que diz melhor do que qualquer tentativa de resumo temático que eu tente escrever acerca do seu conteúdo: “(…) o eu poético assume ora desenvolvimentos de lirismo de enquadramento existencialista, consumado sobretudo numa linguagem pura e dura, por vez a roçar o degradante e o decadente, ora projecções distanciadas de forte pendor narrativo consciente da incapacidade objectiva da explicação do mundo à medida que as palavras se vão gastando e que só a remissão pela morte, em rigor, atenua, na medida em pode restituir o sentido último das coisas, ancorado a um cordão umbilical omnipresente”. Assim é, com uma grande capacidade de combinar as palavras como se tivessem sido escritas numa pauta musical: respira-se a cada compasso, onde o silêncio entra para dar espaço e tempo ao leitor de reescrever as palavras dentro de si, como se tivessem saído dele. As imagens saltam em catadupa, correm, fluem como cascatas, distorcem num jogo de espelhos, sobrepondo sentimentos e sensações de grande complexidade, ora de intensa repulsa ora de redobrada ternura, trazendo a nu sem complexo ou preconceito a intimidade feminina, e o seu papel na sobrevivência humana.
Alice Macedo Campos não detém apenas um grande talento. Neste seu primeiro livro revela bom engenho com a linguagem. Não demarcando das suas influências (Herberto Helder e Al Berto, principalmente) – o que é perfeitamente natural para um autor que se estreia –, utiliza um vocabulário rico mas não rebuscado, sem ceder aos recursos estilísticos pesados, deixando, como já disse, a pausa necessária para se respirar. Soube evitar a adjectivação intensa distanciando-se do versejar simples dos muitos que dizem escrever poesia, e imprime na sua escrita um cunho pessoal intrinsecamente feminino, uma presença muito forte dessa sua condição que rejeita tabus. É uma autora em que devemos acreditar. Sou da opinião que tem em si as bases bem fundeadas para se tornar numa afirmação literária. Citando Buffon, “só as obras bem escritas hão-de passar à posteridade”, e creio que com o trabalho e o desafio tomados a pulso, este ciclo menstrual da noite poderá ser o primeiro de muitos duradoiros livros de Alice Macedo Campos.