Opinião
Revela-se este livro de Samuel Beckett, de alguma forma, desconcertante pela ausência de respostas na mente do protagonista, apesar do seu discurso ininterrupto em busca obsessiva de, através da palavra, nomear a realidade (a sua, a dos outros) para que esta ganhe a forma e a visibilidade que lhe permita definir-se e situar-se enquanto ser humano com um percurso de vida. É o absurdo da existência humana, no que esta tem de confinamento, prisão, solidão, incomunicabilidade, desdobramento, incerteza, indefinição, repetição, paradoxo, esquecimento, efemeridade espácio-temporal, inabitabilidade,…; este absurdo é indizível e o indizível é inominável. E, no entanto, podemos senti-lo, podemos vislumbrá-lo, e daí o desconcerto perante uma personagem que chega a duvidar da sua própria existência.
Excerto
«Este que eu sou, este que aqui está, que não pode falar, não pode pensar, e que tem de falar, e portanto pensar talvez um pouco, não pode falar ou pensar apenas em relação a mim que estou aqui, e ao aqui onde estou, mas pode falar e pensar um pouco, o suficiente, não sei como, não é isso que importa, em relação a mim que estive noutro lugar qualquer, que estarei noutro lugar qualquer, e a esses lugares onde estive, onde estarei. Mas eu nunca estive noutro lugar qualquer, por mais incerto que o futuro seja. E o mais simples é dizer que o que digo, o que direi, se puder, se refere ao lugar onde estou, a mim, que estou nesse lugar, apesar de me ser impossível pensar nisso, falar disso, por causa da necessidade que sinto de falar disso, portanto de pensar talvez um pouco nisso. Outra coisa: o que eu digo, o que talvez venha a dizer, a este respeito, a meu respeito, a respeito da minha morada, já está dito, porque, estando aqui desde sempre, ainda aqui estou. Até que enfim, um raciocínio que me agrada, digno da minha situação. Portanto, não tenho de me preocupar. Mas estou preocupado.»