Opinião de Leitura
Livro

Autor: Peixoto, José Luís

Leitor:

Opinião

   Um livro que personifica em si o que realmente é um "livro", sentimos vida no objecto. Não se trata de uma redundância, mas apenas o que esta obra me transmitiu. É verdadeiramente incrível o enredo circular que o autor consegue criar na parte final da obra, misturando o leitor com a acção e consigo próprio (enquanto narrador e personagem!). Por momentos esquecemo-nos que estamos a ler um romance, dando por nós a falar com o LIVRO.
   Na minha opinião é uma obra muito original, nunca tinha lido nada com estas características. A capacidade criativa de José Luís Peixoto fascinou-me a cada parágrafo.

Excerto

   "Era uma noite de agosto, escaldada. Os paralelos emanavam ainda toda a força de calor que tinham acumulado durante o dia. À medida que caminhavam, a Adelaide sem olhar para trás, afastavam-se da música da festa e aproximavam-se da sua própria respiração. Não havia pessoas sentadas ao fresco porque estavam todas à espera dos artistas que haviam de suceder ao gira-discos, estavam no embalo das roupas a serem estreadas. Se passava alguém, tinha pressa e dizia boa noite ao Ilídio. Nesse vagar, chegaram a ruas onde havia tocas de grilos entre os paralelos. A Adelaide contornou o muro da Dona Milú e desceu em direcção à fonte nova. O Ilídio sentiu gelo arrumado às raízes dos dentes, sentiu uma lâmina a raspar-lhe no osso da espinha, sentiu as unhas a estalarem e a saltarem-lhe dos dedos, mas continuou.
   A Adelaide desapareceu atrás do chafariz. O Ilídio não temeu o arrulhar das águas e desapareceu no mesmo ponto, atrás do mesmo muro. Era uma noite de agosto, os grilos. Nada havia de realmente negro nas sombras de hera que se atiravam pelo muro da Dona Milú. A terra respirava. Quando a Adelaide saiu de trás do muro do chafariz, já uma vírgula iniciara o percurso em direcção ao seu útero."

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