Opinião
A Clarice, neste livro, despe a capa de "humano" que todos nós temos, e desce para o inumano, associado a toda a forma de vida, para tentar encontrar uma explicação para as dúvidas que temos enquanto "humanos". É uma dissertação fantástica, com vários picos que nos deslumbram completamente. O humano como capa criada pelo homem para poder suportar a essência da vida. A esperança explicada como conceito criado pelo homem para poder suportar o momento presente. Etc...
Não sendo a Clarice uma filósofa, ela relata com uma tal profundidade metal-psicológica-filosófica a essência da vida e a essência do ser, que quase a poderiamos tratar como tal.
Clarice não procura explicação para o sentido da vida, ela "apenas" o constata. Mas constata de uma forma que nos põe completamente a nu perante nós próprios.
Acho que Clarice devia ser uma leitura OBRIGATÓRIA para qualquer estudante de filosofia, não por expôr qualquer teoria, mas por nos fazer pensar de forma tão profunda, que, a partir daí, torna-se mais fácil interpretar as várias correntes filosóficas.
Excerto
Enfim, enfim quebrara-se realmente o meu invólucro, e sem limite eu era. Por não ser, era. Até ao fim daquilo que eu não era, eu era. O que não sou eu, eu sou. Tudo estará em mim, se eu não for; pois "eu" é apenas um dos espasmos instantâneos do mundo.
Minha vida não tem sentido apenas humano, é muito maior - é tão maior que, em relação ao humano, não tem sentido. Da organização geral que era maior que eu, eu só havia até então percebido os fragmentos. Mas agora, eu era muito menos que humana - e só realizaria o meu destino especificamente humano se me entregasse, como estava me entregando, ao que já não era eu, ao que já é inumano.
E entregando-me com a confiança de pertencer ao desconhecido. Pois só posso rezar ao que não conheço. E só posso amar à evidência desconhecida das coisas, e só me posso agregar ao que desconheço. Só esta é que é uma entrega real.