Opinião
Esta peça de teatro lê-se em algumas horas, quanto muito numa tarde. Nela, ao conceito metafísico de Justiça - com maiúscula -, Camus contrapõe, prefere e defende aquilo que António Quadros - tradutor e autor do prefácio na edição "Livros do Brasil" - designa por "ética do justo".
Sob o pretexto de um enredo simples - um grupo de revolucionários russos planeia um atentado à bomba contra a pessoa do grão-duque -, representa-se neste livro a luta entre os conceitos - abstractos, ideais, futuros, eventuais - que não raro se elevam, na sua inerente transcendência, muito acima da vida que deveriam servir, e os actos - isolados, mas concretos, operantes, presentes - que em si permitem uma maior proximidade entre a vida humana e os seus mais nobres valores.
Camus refuta a existência de uma Justiça e confronta-a com os justos -aqueles que, em cada acto, por mais simples, consideram antes de mais o respeito fundado no amor.
É assim que Yanek (Kaliayev), incumbido de lançar a primeira das várias bombas fatais, à passagem da carruagem do grão-duque, apercebendo-se que este se faz acompanhar de duas crianças, se sente incapaz de cumprir apalavra dada ao grupo.
E explica-o, desolado:
«Eu não sabia, não podia prever. Crianças, sobretudo crianças. Viste as crianças? Esse olhar sério que têm às vezes... Não fui capaz de as olhar a direito... E, no entanto, um minuto antes, no canto sombrio do pequeno largo, eu estava feliz. Juro-te, quando as lanternas da carruagem começaram a brilhar ao longe, senti o meu coração bater de alegria. Batia cada vez com mais força, à medida que o barulho das rodas da carruagem aumentava. E esse barulho estava dentro de mim. Tinha vontade de saltar. Creio mesmo queria. E dizia «sim, sim...». Compreendes?
Corri para ela. Foi nesse momento que os vi.[...]
Então, não sei o que se passou. Os meus braços enfraqueceram de repente. As pernas tremiam-me. Um instante depois, era tarde demais...[...]»
Inicia-se aqui a discussão, protagonizada por Yanek e Stepan - este, incapaz de compreender a hesitação do primeiro -, que é a alma da peça, e na qual surgem questões essenciais; dois exemplos:
- a luta pela Justiça fundamentará a prática de actos injustos, como o que resultaria da morte dos sobrinhos do grão-duque?
- a Justiça mede-se em termos quantitativos ou de natureza? - na ignóbil comparação de Stepan: «Porque Yanek não as matou [às duas crianças que acompanhavam o grão-duque], milhares de crianças russas morrerão de fome nos próximos anos.»
Stepan toma o partido do Elevado Conceito; Yanek defende os actos em si. Por fim, Yanek exprime aquilo que, possuindo um contexto claro na peça, se revela também, afinal, o resumo da própria filosofia de Camus (e aquilo que o fez desentender-se com Sartre, sendo que nesse momento somos levados a reler Stepan em busca do desenho desse filósofo):
«[...]amo os que vivem hoje na mesma terra que eu, e são esses que saúdo. É por eles que luto e é por eles que estou disposto a morrer. E por uma cidade longínqua, de que não tenho sequer a certeza, não irei contra os meus irmãos. Não aumentarei a injustiça viva em nome de uma justiça morta.»
Além da clareza da escrita, que atravessa a obra de Camus, o que seduz neste livro é a sua perfeita actualidade - o enredo, localizado na Rússia, serve de mero pretexto para um debate intemporal -, bem como a possibilidade de, a partir do dilema apresentado, se estender a crítica a todos os grandes conceitos e todos os pequenos actos e à frágil compatibilidade entre eles.