Opinião de Leitura
Caranguejo Caranguejo

Autor: A., Ruben

Leitor:

Opinião

   Curioso romance que faz justiça ao título começando no capítulo X e terminando no I. E é também assim que a história se desenvolve, do presente para o passado, sendo que a revelação do último nos dá a compreensão do primeiro. Uma mulher - "Ela" - vive enclausurada numa vasta quinta, com os seus muitos filhos, enquanto o marido - "Ele" -, advogado, empresário, industrial, e por aí fora, passa semanas seguidas na cidade, mergulhado nos negócios e nas amantes.
   História banal, dir-se-ia, não se desse o caso de para tal decadência - inserida na decadência mais vasta e cúmplice da sociedade - Ruben A. ter encontrado uma forma muito próxima da perfeição - se não há crescimento interior individual e não se vislumbra qualquer partilha de mundo no campo dos afectos, a vida é traída, não avança, retrocede, e assim o momento mais puro da história é o último, o imediatamente anterior ao nascimento d'Ele, aquele em que ainda existiria um mínimo de esperança no cumprimento e celebração de alguma humanidade.
   Ruben A. é senhor de uma semântica espessa e nebulosa, que ao primeiro contacto choca e parece fechar a narrativa a sete chaves, mas que a leitura abre facilmente. Não se percebendo bem como, eis que estamos dentro de um mundo inesperado, de ritmo próprio e único, fértil de belas e ricas imagens, muitas vezes da mais irrepreensível prosa poética.

Excerto

   «Deitadas as crianças em surdina de peganhentices o jantar aproximou-se de hora estabelecida e conduzida à mesa pelo instinto da cronologia Ela sentou-se em desdobrar de guardanapo. Em frente com mostarda inglesa a mestra contemplava os envelopes rendilhados. A sopa colherava-se pelos monossílabos da véspera onde a Miss de mentalidade infantil distraía a atmosfera culinária.»

   «A casa de silêncio à noite opunha medo às almas doutro mundo apenas facilitando arremessos ferozes de ratazanas aristocráticas. As ideias, os costumes, as políticas dos bichos nocturnos invadiam as cadeiras da sala de jantar num espírito apavorado de sinagoga para católico. A cumplicidade do caruncho andava pelos bastidores num desejo beduíno, ao mesmo tempo carochas caracterizavam o passear na cozinha onde uma cautela de escuridão clareava os garfos que pareciam barbas emplumadas das estrelas mais vaidosas.»

   «Essa manhã tinha sucos. Tinha azuis espremidos contra o castelo e farrapos brancos perdidos como flocos de neve, - numa das colinas o chapão até embebedava padres absténicos - era uma gama sem dicionário onde roupa estendida de andares pendurados paraquedava aos suspiros do espilro; - de um lado prostituição declarada, do outro avenidas novas para amantes já não consideradas meretrizes de passe. Toda a cidade respirava em chaminés de inconsciência, junto a junto, perto a perto, amor a amor, caminhavam a tragédia e o estupefacto sem beliscarem as superfícies de ganâncias independentes.»

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