Opinião
Não podemos sempre encontrar o melhor de tudo dentro dum só frasco de geleia de marmelo, porque o sorrir da criança gulosa com os lábios sujos não está lá dentro. Assim, e com esta ideia penso conseguir admitir que O Mar Por Cima tem tudo, o bom e o mau da vida, mas permite não encerrar em si mesmo a satisfação que eu, leitor, guardarei sempre.
Entre ilhéus açoreanos e continentais da capital, Possidónio Cachapa, faz correr histórias que são uma só, porque o ser humano tem um só destino, metamorfoseado em inúmeros corações diferentes. Tal como em A Materna Doçura, o autor anseia mostrar o amor que falta compreender, que se entende e existe, mas se extingue em comportamentos sociais enclausurados e claustrofóbicos.
Todo o comum sentimento é descrito com o pormenor da dor sentida quando se recebe um murro no estômago. E essa descrição é tão real que o comum e o banal, afinal, são coisas que desconhecíamos por ganharem sentido no momento exacto da leitura e, por isso, não são comuns nem banais, como as camélias de cheiro doce caindo no chão com a brisa suave do mar. Entre mulheres e homens, entre ter, imaginar que se pode ter e não ter nada a não ser a vida, Possidónio Cachapa, entrelaça factos e verdades que só a cada um de nós, leitores, diz respeito. A vida, que é de outros por acaso, é exposta com pormenores silenciosos ou silenciados pelo marulhar permanente das águas frescas do Atlântico.
Neste livro a dor oferece-se e o júbilo de qualquer certeza, excepto a morte, é irreal.Todas as histórias têm o mesmo fim, mas isso sempre se soube e sabe. Mas enquanto a certeza não arriba, tanto o amor como a consciência de estarmos vivos vão crescendo e humilhando as personagens nas certezas sem justificação. O autor é meigo no seu escrever, surpreende o rematar de sentimentos elaborados em espiral cujo centro faz explodir nas têmporas verdades que se não cruzam sempre connosco diariamente, mas fazem furor em sinais do tempo de hoje, cinzento nas cidades ou azul e verde nas ilhas.
O autor tem a capacidade de explorar os problemas sociais de uma forma muito boa, quase usando a subjectividade para alcançar, como um polvo, o mundo inteiro que sabe, e não se esquece, da vida de todos os dias. Esse mundo inteiro, que só por querer se enterra em esquecimentos e drogas legalizadas que lhe permitam o afastar do mundo, ao qual pensa não pertencer, todos os dias, depois do trabalho e dos sovacos nos transportes.
O livro, uma edição de Maio de 2002 da Oficina do Livro, quer sonhar connosco um destino único de esperança no amor.