Opinião
Italo Calvino é um dos grandes nomes da literatura contemporânea. Resistente ao fascismo italiano e ao horror nazi, Calvino chegou a aderir ao Partido Comunista, abandonando-o em 1957, depois da insurreição húngara. Pelo final da Segunda Guerra Mundial, com vinte e dois anos, publicou os primeiros contos. Estudou Letras, em Turim, e começou a trabalhar numa editora, a Einaudi. Aliás, haveria de assumir cargos de grande relevo na actividade editorial, ao mesmo tempo que escrevia. Morreu em 1985, na cidade de Siena.
A edição portuguesa de O Caminho de San Giovanni, como é habitual na obra de Calvino, é da Editorial Teorema. São cinco exercícios de memória do autor, escritos entre 1962 e 1977 e organizados pela sua mulher, Esther, que aqui teve de fugir à ideia inicial de que ao volume se chamasse Passagens Obrigatórias. E tudo porque além destes cinco contos, Calvino teria intenção de escrever mais três, o que acabou por não fazer. Um dos que ficou perdido para sempre na memória, curiosamente, chamar-se-ia Cuba, por certo uma alusão à grande ilha das Caraíbas, onde Calvino nasceu em 1923, em Santiago de Las Vegas, embora muito novo tivesse viajado para Itália, para aí passar grande parte da vida.
O título do livro é o do primeiro dos cinco contos. Inspira-se na estrada que o pai de Calvino percorria para ir a San Giovanni, e que marcava uma estranha divisão. Ou se calhar nem estranha, apenas a divisão que qualquer ser humano, mais cedo ou mais tarde, acaba por descobrir. Um excerto:
«Era sempre por ali que saía o meu pai, vestido à caçadora, de polainas, e ouvia-se o passo das botas cardadas pelo regueirão, e o tinir de latão do cão, e o chiar da cancela que dava para a estrada de San Pietro. Para o meu pai o mundo era lá em cima que começava, e a outra parte do mundo, a de cá de baixo, era só um apêndice, às vezes necessário pelos assuntos a tratar, mas estranho e insignificante, para atravessar em grandes passos quase em fuga, sem rodar os olhos à sua volta. Eu não, bem pelo contrário: para mim o mundo, o mapa do planeta, ia da nossa casa para baixo, o resto era espaço em branco, sem significado; os sinais do futuro, esperava decifrá-los lá para baixo daquelas ruas, daquelas luzes nocturnas que não eram só as ruas e as luzes da nossa vila isolada, mas a cidade, uma cidade de todas as cidades possíveis, tal como o seu porto era já os portos de todos os continentes (...)»
Como em títulos anteriores, o que se encontra em O Caminho de San Giovanni é a grande escrita e a sabedoria de Italo Calvino, autor que deixou uma obra tão vasta quanto multifacetada. Boa parte dentro de um baú, para ser (re)oferecida aos leitores precisamente pela sua mulher, Esther. E (re)oferecida porque já antes tinha aparecido, nomeadamente em jornais e revistas. No caso deste livro, e mais precisamente do conto que lhe dá o título, a primeira publicação aconteceu no Corriere della Sera de 25 de Abril de 1974. Andávamos nós ocupados com outras sabedorias.
[Texto retirado da página de António Manuel Venda, www.antoniomanuelvenda.com, Secção 'Crónicas - O Livro da Semana', 02.09.02-08.09.02]