Opinião
Manuel Tiago, pseudónimo literário de Álvaro Cunhal, é um autor que em termos de ficção se coloca como um caso à parte no panorama da letras portuguesas. Escrita simples, tremendamente realista e por vezes de uma inocência desarmante, e sempre colada à vida dos membros do Partido Comunista Português durante o Estado Novo. O livro tem a chancela das Edições Avante!, como é habitual nas obras de Manuel Tiago.
Fronteiras é um conjunto de treze histórias que o autor, num pequeno prefácio, aconselha a que sejam lidas como ficção. Acrescentando:
«O essencial dos acontecimentos narrados, o fio de cada história de saltos clandestinos de fronteira, bem como esquemas, situações, soluções, dificuldades incluindo as mais duras, e mesmo grande parte dos incidentes, correspondem a experiências de homens e mulheres que as viveram na vida real. De muitos homens e mulheres. Uns hoje já mortos. Outros ainda vivos.
Apenas, porque escrever contos é literatura, porque escrever histórias não é fazer História, porque ficção é imaginação, fantasia e sonho, em cada um destes contos e em cada uma das personagens estão, presentes e fundidos num todo, caos, situações, características e experiências diversas.
Nenhuma das histórias foi assim tal e qual. Mas tudo o que se conta em cada conto aconteceu. Tudo nestes contos é ficção e tudo neles é realidade.
Assim, se o leitor se sentir tentado a acreditar que as coisas se passaram como são narradas, pode estar certo de que não se engana em relação à verdade histórica.»
Um bocadinho de uma das histórias, intitulada De Comboio Pela Alemanha Nazi; a história de Vito, que é nem mais nem menos do que o próprio Álvaro Cunhal, em 1935, a caminho de Moscovo, para participar no VII Congresso da Internacional Comunista, Cunhal com vinte e três anos e a usar não o nome Manuel Tiago mas sim Daniel. O início:
«Inteligente, empreendedor, sempre pronto às tarefas, Vito, apesar de muito jovem, foi enviado à União Soviética.
Viagem arriscada. Travessias clandestinas a pé da fronteira de Portugal para Espanha e de Espanha para França. Depois, por caminho-de-ferro, com passaporte falso, travessia da Alemanha hitleriana, do Corredor de Dantzig, da Prússia Oriental e de países bálticos até Moscovo.
Frequentou um curso, conheceu um pouco o país e agora tratava-se de regressar.
Repetindo a travessia da Alemanha, a volta era mais perigosa que a ida. Consideraram porém que Vito tinha estaleca para se safar. Dispondo de passaporte francês, falava francês na perfeição, pelo menos segundo ele próprio admitia. Era desembaraçado e corajoso. Estava em condições de afrontar o risco. A prontidão com que recebeu a notícia eliminou qualquer última hesitação.
Um camarada acompanhou-o discretamente ao comboio, indicou-lhe a carruagem e lugar e deixou-o entregue a si próprio.»
Histórias deliciosas, onde até algumas falhas de sintaxe se desculpam.
[Texto retirado da página de António Manuel Venda, www.antoniomanuelvenda.com, Secção 'Crónicas - O Livro da Semana', 26.08.02-01.09.02]