Opinião
Quarto título da espanhola Alicia Giménez Bartlett na colecção Damas do Crime, da Editora Pergaminho, Mortos de Papel, volta a trazer até aos leitores uma dupla que já se tornou um clássico da literatura policial do país vizinho, merecendo inclusive honras de passar a série televisiva. Prossegue assim a saga da inspectora Petra Delicado (um nome feliz para uma mulher dura mas com um lado muito terno) e do subinspector Fermin Garzón, os dois polícias criados por Alicia Giménez Bartlett para desvendar os casos mais estranhos que acontecem na cidade de Barcelona.
Petra Delicado anda na casa dos quarenta anos; é uma mulher bastante atraente, licenciada em Direito e trabalha no departamento de documentação de uma esquadra de Barcelona. A ajudá-la tem um polícia transferido de Salamanca, a tocar os sessenta anos, viúvo, um homem com um grande sentido do dever e algo conservador, especialmente em relação às mulheres. Em Mortos de Papel, Petra e Fermin recebem de uma outra dupla, ocupada com um caso a requerer tratamento especial, a missão de investigar a morte de um jornalista da imprensa cor-de-rosa especializado em divulgar escândalos. O morto cor de rosa trata-se nem mais nem menos do que um tal Ernesto Valdés, que nas suas crónicas escrevia coisas como estas: «Albertito de las Heras, que deixou inúmeras dívidas e contas pendentes em Marbella, diz agora que vai abrir um restaurante em Madrid. A verdade é que não sabemos que posto irá ocupar dentro do estabelecimento: se ajudante de cozinheiro, ou se empregado da caixa registadora, para poder meter o dinheiro ao bolso antes de pagar aos funcionários. Se bem que, o mais provável, é que se dedique a fazer sala com os clientes, sobretudo com as clientes, que certamente gostarão dele, como tem acontecido sempre até à data, já que o único mérito de Albertito é viver para, por e à custa das damas, e não me refiro ao jogo tipo xadrez!»
Assim escreve Ernesto Valdés, sobre quem o subinspector Fermin diz a certa altura: «Finalmente calou-se». O problema é que aqui os suspeitos não são os do costume. Com tanto dar à língua enquanto viveu, ou à pena, arrastando para a lama os nomes de meio jet-set de Espanha, Valdés tinha arranjado maneira de ficar na mira de muita gente. Ou das armas de muita gente. Mas a inspectora Petra Delicado e o seu ajudante vão tentar deslindar o caso.
Alicia Giménez Bartlett nasceu em Almansa em 1951, mas vive desde 1975 em Barcelona. É licenciada em Literatura e Filologia Moderna, tendo sido professora durante alguns anos, actividade que abandonou depois do sucesso alcançado com os livros, principalmente os policiais.
[Texto retirado da página de António Manuel Venda, www.antoniomanuelvenda.com, Secção 'Crónicas - O Livro da Semana', 05.08.02-11.08.02]