Opinião de Leitura
Os Sinos de S. Bartolomeu Os Sinos de S. Bartolomeu

Autor: Figueiredo, Nuno

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Opinião

   Este livro é um fresco da vida coimbrã nos anos cinquenta do século passado. Com personagens da pequena e média burguesia, assim como das elites locais da Igreja e da vida académica, é uma história de iniciação. Num «país adormecido - como se diz na badana - onde os dias se desenrolam lentos e sem expectativa, à sombra da suspeita e do medo».
   Começa com uma admirável descrição de Coimbra:
   «Coimbra é uma cidade triste e parada, talvez por isso a ame tanto. Talvez por isso se quede tantas vezes apoiado ao gradeamento da ponte olhando os salgueiros debruçados sobre o rio, a curva ao longe onde a água se embrenha entre o arvoredo no sopé dos montes azuis a perder de vista. Por tanto a amar segue-a com doçura trepando nas manhãs de Inverno soalheiro, socalco a socalco, vencendo o desnível até à torre que a coroa, projectada no céu aberto e luminoso. Gosta de ficar ali, à beira da Portagem, a ver o rio quase seco, transbordante após as enxurradas que desde a serra empurram, de bermas corroídas, terras, lamas, árvores inteiras e animais estripados, como se de um grande e caudaloso rio se tratasse, quando afinal, passadas as chuvas austeras da Beira e o ribombar dos trovões de tempestades fora de horas, não é mais do que aquele delta indefinido num areal de desolação, lodo, juncos semeados entre veios de água salobra, imóvel, onde os mosquitos e as libelinhas se acoitam.»
   Nuno de Figueiredo nasceu em 1943, em Coimbra. É licenciado em Engenharia Civil, pelo Instituto Superior Técnico. Na década de 60, colaborou com diversas publicações regionais (Diário de Coimbra e jornais da Figueira da Foz), acabando por voltar à escrita vinte anos depois. Então, publicou romances, colectâneas de contos e livros de poesia, alguns dos quais assinou com o pseudónimo Alberto Marques. A sua obra está disponível quase na totalidade na editora Escritor. Nuno de Figueiredo foi várias vezes distinguido com prémios literários (Joaquim Namorado, Vasco Branco e, já em 2001, Cesário Verde e José Régio) e está também representado em diversos anuários e antologias.

   [Texto retirado da página de António Manuel Venda, www.antoniomanuelvenda.com, Secção 'Crónicas - O Livro da Semana', 01.07.02-07.07.02]

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