Opinião
Esta obra, de reflexão e quase sem enredo, transforma-se, no inesperado final, num romance de escassa narratividade, e profunda riqueza de ideias.
A conhecida inquietação e angústia de ser, de Vergílio Ferreira, expressa-se permanentemente ao longo da obra, mas promove-se inesperadamente numa enigmática e aberta confiança numa promessa. Numa confiança, afinal já surgindo em controvérsias, entre o sujeito (que não quer ser o próprio Vergílio Ferreira, pois às vezes até dialoga com o autor) e as personagens com "soluções" como que se confronta.
Descrições maravilhosas de uma paisagem obsessivamente admirada da janela com grades, com o mar, a praia, o horizonte (claro), e a evolução do sol e do dia, até o pôr do sol, e subitamente, a madrugada, paralelizando com as descrições da vida do personagem.
Vergílio Ferreira é um fantástico escritor, e surpreendem as imagens de coisas simples, como um acidente, o sinaleiro (de luvas brancas à antiga), um mergulho no mar. É indescritível, só lendo.
Sinceramente, depois de Nítido Nulo, os livros de Saramago parecem-me vulgares (e eu admiro muito este brilhante escritor).
Esta obra contém uma problemática existencial que nem me atrevo a comentar, e temo não ter absorvido toda.
(mas eu entendo, Vergílio)