Opinião de Leitura
A Caverna A Caverna

Autor: Saramago, José

Leitor:

Opinião

   Este livro de Saramago é um Romance convencional, conta uma história, com as suas vicissitudes e personagens, mas tem umas interacções e referências a assuntos mais ou menos clássicos da Filosofia, ou são mesmo intervenções filosóficas. Na verdade, é bastante longo, e por tanto tempo que me levou a lê-lo, provocou bastantes reflexões, talvez a mais.
   Há dois assuntos de cariz filosófico, que se podem referir:
   Um é mais óbvio, dado que parte da citação d'A República de Platão, referente à Alegoria da Caverna, e depois incorporada no Romance.
   Outro, apenas extrapolado, é uma base filosófica que me parece pairar permanentemente na obra: referência à escola filosófica do Pragmatismo.
   Gostaria de tratar o primeiro assunto, porque interessa à feitura do Romance, e daí, logicamente, à sua leitura; e me parece acessível a algum comentário. O segundo assunto parece-me mais difícil.
   A discussão da questão da Caverna, neste Romance, passaria por eu fazer descrições sobre os factos e ocorrências da história - o que eu gostaria de evitar, e não 'contar o filme', para não estragar a leitura dos que a queiram fazer por si.
   Assim, o que direi, e sem pretensões de dissecar as ideias de Platão, quando conta esta história, é que este autor grego usa esta construção, simbolicamente, para aludir às várias fases e graus do conhecimento do Homem, aos estados, desde a mais ínfima capacidade de atingimento da realidade (os homens presos na escuridão da Caverna, só vendo sombras), até aos que atingiram o conhecimento total, do mundo das ideias essenciais (os que viram a luz do dia, e o mundo como é na verdade, saídos cá fora da Caverna). É o caminho que Platão aponta dever percorrer-se ao fazer o trabalho de pesquisa filosófica, até ao ápice do Saber.
   Saramago não usa esta visão filosófica, deste modo metafórico, desta Alegoria, mas, dela, reconstrói uma história, com uso factual mais concreto, para constituir uma discussão mais do foro sociológico e político.
   É de notar que, se calhar, todas a sobras duma certa qualidade, com algum valor artístico, têm um conteúdo que as faz realizar sempre algumas incursões, ou se servir de bases, filosóficas.
   Pensando bem, ainda poderia acrescentar das ligações desta obra à Filosofia de Marx, olhando o papel, não da Caverna, mas do Centro, metáfora do poderio económico e do capital.
   Mas neste Romance, sobre este aspecto, não há verdadeiramente nenhuma ideia inovadora, nem nenhuma especial reflexão, mas apenas uma descrição factual ligada ao pragmatismo materialista.
   Sendo assim, por aqui não se poderá dizer que haja uma intervenção filósofica.
   Este Romance tem uma ideia originária da Alegoria da Caverna, de Platão. Deixarei alguma coisa sobre as características literárias, desta obra que me parece bastante inferior a outras suas, de maior relevo.
   Na verdade, o enredo arrasta-se demasiado, estende-se por descrições longas e algo sensaboronas, apenas despertadas por ocasionais reflexões, de maior lucidez. E há o interessante papel do cão, como uma 'consciência' vinda do fundo da Natureza.
   Saramago tem uma escrita de grande rigor, mas ao usar aqui um discurso de tipo popular, entre em certa ambiguidade, que noutras obras, como Memorial do Convento esse risco não corre. É uma história demasiado simples, e não levada a um sentir totalmente conseguido, e não obtém o impacto desejado, no desenlace.
   É o pior Romance que já li, de Saramago, mas com interesse ainda, em nada um mau livro, com valores positivos.

Comentários

   Na Alegoria da Caverna segundo Saramago, uma família de Oleiros representa o exterior humano e artesanal de um Centro (nunca se escreve comercial, mas o autor tem-no dito) com muralhas altas e janelas que não se podem abrir (para evitar suicídios incómodos). Sendo que a ideia de «A Caverna» já vem antes do Nobel, ao fim de três anos e de umas tantas voltas ao mundo, eis finalmente o romance – afinal escrito em apenas seis meses, os primeiros de 2000. Um recorde pessoal de quem queria mesmo acabar antes do fim do século. “A única pressão era essa, escrevi-o no mesmo estado de espírito dos anteriores. Não tinha que provar que era capaz de fazer outro livro”.

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