Opinião
Muita tinta tem corrido no decorrer dos anos com o singelo propósito de “analisar” a natureza do português, de Portugal e das coisas ditas portuguesas. A carga mítica e simbólica de lendas como o milagre de Ourique (predestinação do Reino de Portugal para grandes feitos legitimada pelo próprio Cristo crucificado...) ou o regresso anunciado de D. Sebastião que conferiram ímpeto à obra de um Padre António Vieira ou de um Fernando Pessoa, especialmente no que concerne à celebrada teoria do 5º Império, é de certa forma desconstruída por Miguel Esteves Cardoso, habilmente diga-se, ao descer Portugal e os portugueses do pedestal de glória a que tantos os içaram, demonstrando com ironia, humor e sarcasmo que, apesar da nossa especificidade que inclui vícios adoráveis e vícios detestáveis, não somos nem mais nem menos que qualquer belga ou finlandês.
Um dado interessante que invade estas crónicas que antecedem, por exemplo, a entrada de Portugal na então designada CEE, é a “assustadora” identificação desse Portugal e desses portugueses retratados nos anos 80 com o Portugal e os portugueses de agora. São crónicas que poderiam ter sido escritas ontem e não se detectaria qualquer vestígio de deslocação temporal, qualquer anacronismo. Talvez porque a permanência, a imutabilidade sejam características da raiz do nosso coração e do de todos os povos, e o que hoje é verdade, amanhã também o será. A celebração da circularidade ou a recusa de uma assimilação de universalidade? Continuaremos a crer que o nosso umbigo é mais perfeito que o dos outros? Fará sentido pensarmos, como afirmava uma personagem da obra Fazes-me Falta de Inês Pedrosa, que o nosso azar é «sermos filhos dos gajos que cá ficaram, e não dos que se lançaram a descobrir o mundo.»? Uma “raça” depauperada e ainda a viver no solitário orgulho de uma secreta missão superior por cumprir? Diz-se que Portugal não é um país de filósofos... pois se toda a sua filosofia se encontra disfarçada de crónica, romance e poesia...