Opinião
Trata-se de uma antologia organizada pelo autor contendo poemas de Movimento Perpétuo (1956), Teatro do Mundo (1958), Máquina de Fogo (1961), Linhas de Força (1967), Poemas Póstumos (1983) e Novos Poemas Póstumos (1990).
O multifacetismo poético de António Gedeão, pleno de um universo pulsante de tensões e arquétipos cambiantes próprios do ser-se humano, esculpidos directamente na pedra do momento que se aproxima, não raras vezes, do registo fotográfico, torna-o num poeta de leitura obrigatória para quem crê que o poema é um “organismo vivo”, capaz de incutir a emoção encerrada no despertar do riso ou da lágrima provocada pelo pasmo, pela incredulidade libertada, desinteressada, sincera.
Da dispersão no lúdico (Poema do fecho éclair), no social (Calçada de Carriche), no pessoal (Mãezinha), no amoroso (Os amantes liquefeitos) e nunca esquecendo o fazer da ciência poesia e da poesia ciência (Poema do coração), emergiu uma galeria poética e humana rara no nosso panorama literário de sempre. O poeta desce à rua e encontra o fio por onde desce à sua intimidade («E a mim próprio revejo / na ânsia de encontrar / um fio por onde desça / à minha intimidade» – Luiz Amaro). Ou encerra-se em quatro paredes perscrutando os sons da vida que das paredes transpira.
Ler António Gedeão é aprender a dar importância aos pormenores, ver e não somente olhar, acolher o real e transpo-lo para o real, não transformá-lo num suave mito ou produto da imaginação fértil do poeta. Ler António Gedeão é também aprender a viver.