Opinião de Leitura
O Amor O Amor

Autor: Duras, Marguerite

Leitor:

Opinião

   Se escrever sobre a escrita de Marguerite Duras nunca é tarefa fácil, parece sê-lo ainda menos no caso deste livro. Digo, somente, que é um texto que fala do amor com uma limpidez semântica tal que qualquer coisa que sobre ele se pudesse dizer pareceria profanar a sua perfeição. Por isso, aqui ficam 'apenas' uns excertos, em jeito de introdução.
   «Um homem de pé, olhando: a praia, o mar. (.)
   Entre o homem que olha e o mar, junto do mar, alguém caminha. Um outro homem. (.)
   À esquerda, uma mulher de olhos fechados. Sentada.
   (.)
   O triângulo fecha-se com a mulher de olhos fechados, sentada contra um muro que separa a praia do fim da cidade.
   O homem que olha está entre esta mulher e o homem que caminha junto ao mar.
   Como o homem caminha, persistente, com igual lentidão, o triângulo forma-se e deforma-se, sem nunca se quebrar.
   Este homem tem o passo regular de um prisioneiro.
   (.)
   Três. São três pessoas na luz obscura, na rede lenta.
   (.)
   (.) Mas o homem que olhava moveu-se.
   A oscilação regular do triângulo acabou:
   (.)
   O homem que olhava passa entre a mulher de olhos fechados e o outro ao longe, que vai, que vem prisioneiro. (.)
   (.)
   (.) O homem deve estar agora a olhar para a mulher de olhos fechados que está no seu caminho.
   (.)
   A mulher é observada.
   (.)
   Não sente que a contemplam. Não sabe que está a ser observada.
   Enfrenta o mar. um rosto branco. As mãos meio enterradas na areia, imóveis como o corpo. Força detida, deslocada na direcção da ausência. Detida no seu movimento de fuga. Ignorando-o, ignorando-se.
   Os passos recomeçam.
   (.)
   O homem que olhava já passou. (.) dirige-se para um dique que está tão afastado da mulher como esta do que caminha sobre a praia. Para lá do dique, uma outra cidade, muito para além dele, inacessível, uma outra cidade, azul, que começa a encher-se de pontos luminosos. Depois outras cidades, outras ainda: a mesma.
   O homem chega ao dique. (.)
   (.)
   Está sentado na areia, frente ao mar. Deixa de olhar seja o que for, a praia, o mar, o homem que caminha, a mulher de olhos fechados.
   E, por instantes, ninguém olha e ninguém é visto:
   (.)
   E, por instantes, não há ninguém que oiça, nem ninguém que escute.
   Depois, um grito.
   O homem que olhava fecha os olhos também sob o impulso de uma tentativa que o transporta e ergue, ergue-lhe então o rosto para o céu, um rosto revulso. E grita.
   (.)
   O grito foi proferido e ouviu-se no espaço inteiro, ocupado ou vazio. O grito lacerou a luz obscura, a lentidão. Os passos do homem que caminha continuam a ouvir-se, não se detiveram, não afrouxaram, mas ela, ela ergueu ligeiramente o braço num gesto de criança, cobriu com ele os olhos e ficou assim alguns segundos, e ele, o prisioneiro, viu este gesto e voltou a cabeça na direcção da mulher.
   (.)
   A história começa. A história começou antes da marcha ao longo do mar, antes do grito, do gesto, do movimento do mar, do movimento da luz.
   Mas só agora se tornou visível. E é já ali na areia que ela nasce, no mar.»

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