Opinião
Há anos que procuro este livro e, por acaso, fui encontrá-lo na livraria dum Centro Comercial em Lisboa.
a) O autor:
Ernesto Guerra Dacal é um galego erudito e universal, nado em Quiroga (Lugo-Galiza), que, após a Guerra Civil Espanhola, viveu exilado em Nova Iorque, no Brasil e que finalmente, morou nos seus últimos anos em Estoril. Poeta (Lua de Além-Mar, Rio de Sonho e Tempo), ensaísta (Língua e Estilo de Eça de Queiroz), escritor lusófono que em seguida compreendeu a dimensão transnacional da cultura galego-portuguesa-brasileira-africana de expressão portuguesa, em cujo seio, só nele, nunca isoladamente, pode viver a cultura galega para se dignificar definitivamente.
b) O livro:
A estrutura do livro divide-se em três partes, fundamentalmente:
Na primeira parte, contém um ensaio sobre a grande escritora e universal poetisa galega do século XIX, que empregou o português da Galiza nas suas obras (Cantares Galegos e Folhas Novas), Rosalía de Castro, ensaio no qual, além de um esboço biográfico, estabelece Guerra Dacal relação entre os factos mais salientáveis da vida da autora e da sua personalidade, e os aspectos mais importantes da sua obra, nomeadamente a sua rebeldia, rebeldia por escrever, quase pela primeira vez desde o século XV, não em castelhano mas em galego (ou português da Galiza), quando na altura o galego era a língua falada pelo povo, mas o espanhol continuava a ser o idioma oficial em que se exprimia a prática totalidade dos escritores na Galiza1, rebeldia contra a injustiça a que se vê submetido o seu povo, solidariedade com este, começando com o emprego da língua na qual aquele se exprime habitualmente, quer dizer, o galego ou português da Galiza.
Guerra Dacal esforça-se, com especial empenho, em desfazer os tópicos de "Santinha", "Chorona", que sobre Rosalía têm havido, sem deixar de nos mostrar a profundidade lírica da autora, a qual, por outra banda, foi submetida a uma mitificação, pelo povo mas não só, e nem sempre isenta do interesse em nos ser oferecida uma Rosalía "domesticada", "oficial", "politicamente correcta", como põe de relevo Guerra Dacal, máxime numa época na qual qualquer indício de rebeldia era mal visto pelas autoridades espanholas.
Mas, a inovação fundamental do livro é oferecer pela primeira vez aos leitores lusófonos a obra de Rosalía em português normativizado moderno, quer dizer, tornar Rosalía universal. A consideração de Rosalía como escritora "lusíada" (em palavras de Teixeira de Pascoaes), exige uma depuração ortográfica, morfológica, léxica, da sua obra: a pressão secular do castelhano sobre as falas galegas fez - e por desgraça faz ainda hoje - com que o português falado na Galiza, inçado de castelhanismos ortográficos, léxicos, morfológicos, (desculpáveis numa época em que a única língua oficial era a espanhola, mas não modernamente), não fosse um instrumento linguístico adequado para universalizar a poesia rosaliana que foi escrita nessa fala do povo, não tendo ela ao seu dispor um código português depurado, dando uma enganosa impressão de a língua empregada por Rosalía ser diferente do português, o que na realidade não é certo, como demonstra o facto de que autores como Jacinto Prado Coelho, Teixeira de Pascoaes, Rodrigues Lapa etc, tenham compreendido em seguida o carácter lusófono de Rosalía, se bem que a farda ortográfica por ela empregada - única que conhecia numa altura em que, sem excepção, a totalidade dos galegos eram alfabetizados em Espanhol - possa produzir a impressão de se tratar de uma outra língua.
Guerra Dacal sabe que esta tentativa, cuja legitimidade vai ser questionada por quem consideram intocável e mitificadoramente sagrado quanto ela deixou escrito, é pertinente e necessária, porquanto se Rosalía empregou o galego nas suas obras, foi numa altura em que havia uma total ausência de normativa para o idioma do qual ela se serve, como ela própria reconheceu, escrito "sem regras nem gramáticas", chega a autora mesmo a dizer. E no convencimento de que ela teria aprovado esta universalização da sua linguagem, e ainda sabendo o perigo de ser alcunhado e acusado de "traduzir" Rosalía para o Português, afronta vitorioso esta tarefa de dignificar a língua de Rosalía e apresentá-la ao mundo lusófono para que ela possa ser definitivamente tida por uma "escritora lusíada" no mundo lusófono2.
Para isso substitui a ortografia castelhana pela ortografia moderna que ao galego cumpre vestir, restitui formas galegas (galego-portuguesas), em lugar das castelhanas que a autora emprega por desconhecimento lógico e desculpável, por ela carecer, na altura das circunstâncias em que teve de viver e escrever, de um padrão culto.
Poder-se-á discutir tal ou qual forma, tal ou qual restituição, a excesiva liberdade de certas escolhas das distintas alternativas existentes, mas o final conduz para o feliz resultado de podermos ler Rosalía sem interferências alheias e na nossa própria língua universalizada e normativizada, o que é fortemente desejado por muitos leitores galegos e permitirá que a sua obra seja conhecida na lusofonia pelo público leitor, o que a estranha e enganosa aparência ortográfica e os castelhanismos da sua linguagem impediram até agora, máxime se tivermos em conta, o que também assinala Guerra Dacal, a não sempre boa qualidade das edições espanholas das obras de Rosalía, por vezes com grande número de gralhas ou erros tipográficos.
Contudo, cuido que existem palavras que, pela sua eufonia e poeticidade, se poderiam ter mantido. É o caso de "bágoa" (lágrima), "moura" (preta ou negra), "lousa" (campa), "campã" (sino), "meninho" (menino, criança), "orela" (semicastelhanismo que poderia ter passado para "ourela"), "dous", "cousa" (dois, coisa), etc, de funda raizame galega (algumas delas com presença no português dialectal e não só), que acho serem já inseparáveis da literatura galega, bem como perfeitamente legítimas por não serem castelhanismos. A substituição destas palavras nem sempre é, a meu ver, afortunada, pois que se bem que "lágrima" é forma eufónica, não acontece o mesmo com outras como "preta", que substitui "moura", e alguma outra, como "ourela" se bem que aqui não se possa deixar de reconhecer a eufonia de "ribeira" que, no entanto, não tem a lenidade de "ourela". Para os leitores luso-brasileiros não suporia um grande obstáculo na compreensão da obra, porque um pequeno glossário resolveria o problema, como acontece com escritores africanos nas edições portuguesas (tal qual faz, por exemplo, a Editorial Caminho). E isto permitiria, sempre que possível por não se tratar de castelhanismo, vulgarismo ou excessivo localismo, cingir-se mais à literalidade rosaliana, o que em verso é sempre desejável.
Neste ponto, hei-de indicar que, em sentido lusófono, houve tentativas, não sempre de todo afortunadas, de editar as obras de Rosalía de Castro. Assim, Folhas Novas, em edição da AGAL(Associaçom Galega da Língua) é, acho, excessivamente literalista não restituindo castelhanismo nenhum, limitando-se, tão-só, à restituição ortográfica. A de Cantares Galegos é mais decidida, se bem que o modelo normativo escolhido é excesivamente localista em certas terminações ("-om" em lugar de "-ão", algumas formas verbais, etc). Acho que, com as precisões acima indicadas, é o de Guerra Dacal o caminho que se deve seguir com Rosalía.
O poemário seleccionado é, certamente, do melhor de Rosalía. Nada se pode objectar no que à escolha dos poemas diz, a não ser o sentimento de pena e - não direi que não - de certa frustração por não se tratar de uma edição completa da obra de Rosalía, como muitos teríamos desejado, em galego culto e universal (português).
Especialmente há que pôr em destaque o poema, pouco conhecido, com que se abre a antologia, o que começa com o verso "Desde as fartas ribeiras do Mondego" em que a autora canta a comum desgraça de Camões e da linda Dona Inês, o qual demonstra que Rosalía tinha certo conhecimento da literatura portuguesa. Uma prova disto é a estrofe final do poema que acaba assim: "Esta lembrança doce/envolta numa lágrima/manda-te desde a terra/onde os teus foram nados/uma alma dos teus versos namorada", quer dizer, a própria Rosalía (a influência de Camões patenteia-se, nomeadamente, no poema "Ia no monte formosa/Co branco pé descalçado", que lembra em tudo o camoniano "Descalça vai para a fonte/Leonor pela verdura" não aparecendo aquele, por desgraça, no livro de Guerra Dacal).
Quanto à poesia castelhana de Rosalía, também aparece na antologia um conjunto de poesias da obra castelhana En las Orillas del Sar os quais figuram na versão castelhana e traduzidos -aqui mesmo pode empregar-se a palavra traduzidos com plena propriedade - para o português, tarefa que Guerra Dacal qualifica de "muito diferente natureza", porque se bem que a adaptação da poesia em galego para Português ou o que é o mesmo, para galego culto, não deixa de ser dignificação e universalização da língua, o esforço de traduzir é tarefa de muito diferente natureza, fruto - continua a dizer Dacal -, quer de uma grande ingenuidade, quer de uma grande ousadia, lembrando as palavras de John Ciardi no sentido de que traduzir poesia é, na verdade "a Arte de fracassar", e tanto ou mais de espanhol para português, "duas línguas irmãs irremediavelmente separadas pelo mesmo vocabulário" (Folhas Caídas).
Há que pôr aqui em destaque o interessante facto de Guerra Dacal aprofundar na biografia de Rosalía, chegando à conclusão de que a língua primeira da poeta foi o português da Galiza (ou galego), enquanto o espanhol foi língua aprendida. Assim, com o galego se permite toda a sorte de liberdades, e é de notar o maior domínio do galego, frente ao castelhano, em cujo emprego a autora não se sente tão segura, mas sujeita às formas rígidas duma língua que conhece pior. Mesmo chega subtilmente o nosso autor a dizer que em galego Rosalía fala poeticamente, ao passo que em castelhano escreve. A pegada da língua materna foi profunda em Rosalía, e grande o seu conhecimento dela, se bem que só nos níveis e registos linguísticos coloquiais que naquela altura eram possíveis, razão pela qual o léxico que ultrapassa este nível coloquial é substituído por léxico castelhano, em lugar de por léxico genuinamente galego-português, daí os castelhanismos inçarem a obra galega de Rosalía, e daí, também, a pertinência de edições como a que agora comentamos.
A terceira parte do livro é uma muito completa antologia de poesias de tema rosaliano dos muitos que se têm composto, o que faz uma ideia da universalidade de Rosalía: textos em inglês, catalão, português (da Galiza e de Portugal), castelhano, dos mais variados autores, galegos, portugueses, espanhóis, catalães, etc (Miguel de Unamuno, Teixeira de Pascoaes, Federico Garcia Lorca, Carvalho Calero, Salvador Espriu, Eugénio de Andrade), e, ainda, alguns com curiosas e interessantes anotações, como o "Velha Cantiga" do poeta espanhol Federico Garcia Lorca.
Ora, se a bem tratada primeira parte do livro, ocupa por volta de cinquenta e nove páginas, a segunda cento e dez aproximadamente, e a terceira duzentas e trinta páginas mais ou menos, o que parece desproporcionado com o objecto do livro, dar a conhecer a obra de Rosalía aos leitores lusófonos. Cuido que talvez teria sido preferível incluir mais poemas de Rosalía de Castro, e menos poemas alheios. Se bem que o título do livro é Antologia Poética - Cancioneiro Rosaliano, acho que seria mais consoante com a finalidade da obra.
Finalmente, não há dúvida que, com as matizações expostas, este é um memorável livro sobre Rosalía de Castro, ponto de partida e rumo para futuras tentativas de mostrar Rosalía ao mundo lusófono. Como diz Guerra Dacal, o seu intento foi "ad maiorem Rosaliae Gloriam", o que, com certeza, conseguiu.
Com esta edição, cuja leitura não posso deixar de recomendar, e com outras que no futuro continuem o caminho que Guerra Dacal iniciou, o que Rosalía faz não é entrar no mundo lusíada ou lusófono, pois que nele sempre esteve de pleno direito, embora com o desconhecimento de muitos, mas vir a situar-se em posto destacado na literatura de expressão portuguesa.
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(1) Com Rosalía de Castro, houve outros autores que, na Galiza, começaram a empregar o português nas suas obras: nomeadamente Curros Enriques e Eduardo Pondal (depois vieram muitos outros), os quais iniciam o chamado "ressurgimento" do galego como língua literária na Galiza, trabalhando numas condições precárias, pois que não se pode esquecer que o galego, reduzido desde o século XV-XVI à condição de língua rústica, estava submetido a uma esmagadora influência do castelhano, ausente de qualquer tradição cultural e mesmo escrita. Estes escritores, com um material linguístico tão pobre, tiveram o mérito de fazer renascer para o mundo da cultura uma fala ágrafa até então, fala que, aos poucos, foram depurando e cuidando, com tropeços e falhas, alguns intuindo, como Pondal, que a norma culta do galego não era preciso fazê-la, pois que estava já feita durante todos esses séculos de agrafia galega, em Portugal. Quer dizer, o português culto, padrão, aceitando algumas peculiaridades próprias da Galiza, como acontece com o brasileiro, é a norma culta do galego falado. Em palavras de Manuel Rodríguez Lapa, "só é preciso que o povo galego aceite uma língua que lhe é brindada numa salva de prata". Esta grande verdade foi intuida por Eduardo Pondal quando ele escreveu referindo-se ao galego: "Verbo do grã Camões".
(2) «Para contornar essa barreira do vestido linguístico que limita a difusão em Portugal, e no Brasil, do conhecimento da sua singular criação lírica; para que ela possa aparecer na sua verdadeira dimensão de poeta lusíada universal - que é o que Rosalía é - resolvemos nesta celebração do centenário da sua evasão do mundo, mudar de roupa a sua poesia. Assim, ei-la aqui pela primeira vez trajada com o vestido normal da comunidade linguística à que historicamente pertence. Não tivemos que traduzir Rosalía para português - coisa essa descabida, uma verdadeira contradictio in terminis. Trata-se apenas de regularizá-la adaptando-a aos padrões ecuménicos dessa comunidade. Para isso houve somente que des-dialectalizá-la e deshibridizá-la: substituir os arcaísmos, hoje compreensíveis apenas para filólogos e dialectólogos, pelos equivalentes actuais e eliminar os aberrativos castelhanismos de que ela se serviu no seu idiolecto - hoje desterrados da língua literária da Galiza. Transcrevê-la, enfim, não traduzi-la. (Guerra Dacal, Antologia Poética - Cancioneiro Rosaliano, pág. 5)