Opinião
Saramago expõe com um caso, aparentemente simples, de uma epidemia de cegueira, da extrema fragilidade que a sociedade dos dias de hoje (ou qualquer outra, mas ainda mais flagrante com a sociedade moderna) dos imensos recursos de que dispõe. Por outro lado, expõe a crueldade desta mesma sociedade, que, perante um problema gerado por um conjunto de pessoas, imediatamente as isola, descrimina, e, se necessário, mata. Estas duas dimensões encontram-se combinadas neste romance, que descreve, com uma acção rápida e inúmeras vezes imprevisível, a aventura de um conjunto de pessoas atacados por essa epidemia, das quais uma delas fica imune, que lhe permite descrever todos os acontecimentos e horrores pelos quais vão passando. Embora de contextos um pouco diferentes, não consigo deixá-lo de comparar Ensaio Sobre a Cegueira com A Peste, de Camus. Enquanto Camus, numa situação análoga (epidemia de Peste numa cidade) tenta realçar o humanismo das pessoas numa situação de calamidade, Saramago traça a nu todo o lado "mau" da socidade, que, numa situação destas, deixa o humanismo de lado. Temos assim dois pontos de vistas opostos sobre este tema - qual será o mais real - Saramago ou Camus?