Opinião de Leitura
Trainspotting Trainspotting

Autor: Welsh, Irvine

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Opinião

   Haverá rebeldia sem causa? Mesmo no mítico filme de Nicholas Ray interpretado pelo rebelde por excelência, James Dean, se torna evidente que a pose rebelde não é um acaso e esconde sempre uma motivação por mais obscura ou coberta que se encontre pela densa cortina do grande teatro do mundo.
   Um modelo de sociedade esgotado aos olhos de uma juventude para a qual a esperança é utopia, à qual a expectativa legítima num sonho de futuro é negada no que é entendido como uma espoliação, um saque, um acto de pirataria social e humana pode, para começar, constituir-se como soberana causa para comportamentos marginais, desafiadores da ordem instituída, ordem essa gasta por excessivas circunscrições morais nascentes de um novo cinzentismo europeu, versão anos 90. As jovens personagens de Trainspotting criam ficções individuais dependentes da dependência de substâncias químicas e entram “alegremente” no mercado dos sonhos possíveis, voláteis como a sua própria existência de repetido risco, ilusórios como qualquer alienação provocada e, sobretudo, não compatível com o estado que buscam por meio da experimentação sem franjas inovadoras porque o caminho que escolhem percorrer (e é uma questão de escolha escolher não escolher a vida) é redundante dentro dos padrões de rebeldia na medida em que já havia sido mil vezes calcorreado por outros tantos rebeldes repletos de causas e razões. Não confundamos porém causas e razões com validação elementar de atitudes: Edimburgo, a Escócia, o Reino Unido, a Europa, repelem a transgressão, vêem nela uma doença sem causa aparente.
   A droga é a garantia de uma pacífica after-life momentânea, tal como o seria a vitamina C caso fosse ilegal. Um tédio quase baudelairiano parece igualmente reger esta geração de excluídos na noite do além-sonho. Os punks compraziam-se na manifestação ostensiva da sua ostensiva diferença, estes filhos de hippies retardatários ou de hippies convertidos ao facilitismo material, pelo contrário, albergam-se, barricam-se na noite claustrofóbica, em apartamentos bafientos, discotecas e bares onde a ilegalidade é a lei. Réplicas de almas nobres dançando ao som da liberdade reinventada segundo os mesmos moldes de sempre, encontram somente o novelo labiríntico do cansaço, da exaustão, apenas dinâmicas no linguajar primordial e tão honesto que confere acção ao que apenas são palavras. Não é fácil ser a reprodução de uma reprodução de uma reprodução... ad aeternum.

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