Opinião
[b]O comentário que se segue foi adaptado das respostas que dei a uma amiga minha numa conversa sobre esta passagem de Werther. Não fala em geral do livro, mas revela de Werther, o jovem romântico, a intensidade dos sentimentos, que está presente em todo o diário e que na passagem presente no extracto abaixo, quanto a mim, é manifesta.[/b]
Werther é eloquente na defesa das árvores sobretudo (ou só) por causa do seu amor por Carlota, que terá um fim trágico. Eles sentaram-se à sombra das nogueiras. Parece haver uma desesperada identificação entre o amor de Werther por Carlota e todos os lugares onde a viu e estiveram juntos. Abatidas não foram apenas as árvores, mas parte desse amor ou parte do frágil mundo (quase inexistente) que tinham juntos. Daí a sua fúria.
Werther fala na memória viva dos sacerdotes que plantaram as árvores e que nelas estariam presentes de alguma forma, mas o que ele não diz é que para ele aquelas árvores também eram Carlota e eram suas - "Só uma criatura destas mandaria cortar as minhas nogueiras!" – Minhas.
A implícita crítica à mulher do presbítero não é, todavia, irrelevante. Werther é jovem e muito apaixonado. Não se dá conta que ao falar da memória dos sacerdotes não está a olhar para tudo o que sente e pensa. Ele odeia realmente a mulher do presbítero, a crítica é genuína - ele odeia-a. Como ousa aquela mulher mandar cortar as árvores sob as quais se sentou com Carlota?! Como ousa tocar um fio de cabelo de Carlota? Não esquecer que Carlota é, além da mulher amada, para Werther, a personificação máxima da perfeição. Como poderia Werther nesta parte, introduzir, mais uma vez, Carlota, a perfeita e maravilhosa Carlota, sem a descrição da criatura grotesca da mulher do presbítero? Essa horrível mulher é um negativo de Carlota, o oposto no qual Carlota &eac ute;, outra vez, presente e outra vez o centro do discurso.
Carlota era perfeita porque sempre é perfeita a mulher amada.
Excerto
É caso para enlouquecer, Guilherme, ver essas criaturas que vagueiam pelo mundo sem sentir coisa alguma do que a outras faz palpitar o coração.
Já te descrevi aquelas nogueiras, sob as quais eu me sentara com Carlota, em casa do presbítero de S... aquelas lindas nogueiras, que tanto prazer me davam e que de tanta frescura enchiam o presbitério. Recordações vivas daqueles venerados sacerdotes que, tantos anos antes, ali as tinham plantado! O mestre-escola disse-nos algumas vezes o nome de um deles, que lhe fora ensinado pelo avô. Era – dizia ele – um homem respeitável. Assim devia ser, e a sua memória estava para mim consagrada naquelas árvores. Pois foi com os olhos cheios de lágrimas que o mestre-escola me contou ontem que as tinham deitado abaixo.
Deitá-las abaixo! Fiquei furioso! Se apanhasse ali o patife que lhes deu a primei ra machadada, matava-o! Eu, que seria capaz de me vestir de luto se, tendo aquelas árvores no meu jardim, uma delas secasse, havia de presenciar semelhante vandalismo?
Uma coisa me consola, meu bom amigo: – o que é a consciência dos homens! – toda a aldeia murmurou. E tenho a esperança de que a mulher do presbítero há-de conhecer pela diminuição dos ovos, da manteiga e das atenções dos camponeses, a boa obra que lhes fez. Porque foi ela, a mulher do novo presbítero (o velho já morreu), uma criatura seca e escanzelada, que tem talvez razão de não gostar de coisa alguma do mundo, porque ninguém gosta dela; uma toleirona que se julga um portento, que se mete a dissertar sobre os cânones e a trabalhar na reforma crítica e moral do cristianismo; uma mulher a quem os entusiasmos de Lavater fazem encolher os ombros, e a quem, finalmente, a arruinad a saúde priva da maior alegria neste mundo. Só uma criatura destas mandaria cortar as minhas nogueiras! Não! Não posso resignar-me! E queres saber o que ela alega? Que as folhas caídas lhe sujavam o pátio e o faziam húmido. As árvores tiravam-lhe a claridade! E quando as nozes estavam secas, os rapazes atiravam-lhes pedras, o que irritava fortemente os nervos e a perturbava nas profundas meditações quando comparava Kennikot, Semler e Michaelis!