Opinião de Leitura
Montanha Mágica

Autor: Mann, Thomas

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Feira do Livro 2003

Excerto

Do facto de que todo o poderio e todo o governo pertenciam primitivamente ao povo, e que este transmitiu o seu direito de legislação e a totalidade de seu poder ao Estado, ao Príncipe, conclui a sua escola, antes de mais nada, que o povo tem o direito de rebelar-se contra a realeza. (...)
—Nós, porém—continuou Naphta—talvez não sejamos menos revolucionários do que o senhor. Sempre concluímos desse facto, em primeiro lugar, a supremacia; da Igreja sobre o Estado secular. Porque, se a origem não divina do Estado não estivesse escrita na sua testa, bastaria recordar precisamente o facto histórico dele derivar da vontade do povo e não, como a Igreja, de uma fundação de Deus, para demonstrar que ele é, se não uma obra do Demónio, pelo menos um produto da emergência e da imperfeição pecaminosa.
—O Estado, senhor...
—Já sei o que o senhor pensa do Estado nacional. «Acima de tudo o amor à Pátria e o infinito desejo de glória!» A frase é de Virgílio. O senhor corrige-o com o acréscimo de um pouco de individualismo liberal, e surge a Democracia. Mas isso não modifica em princípio as suas relações com o Estado. O senhor não parece chocar-se com a circunstância, de que a alma do Estado é o dinheiro. Ou tenciona, acaso, desmenti-la? A Antiguidade era capitalista, devido ao seu culto do Estado. A Idade Média cristã percebeu com toda a clareza o capitalismo imanente do Estado secular. «O dinheiro será o imperador», é uma profecia do século xi. O senhor nega que ela já se cumpriu integralmente e que a vida se tornou, em si mesma, demoníaca?

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