Opinião de Leitura
O Duplo O Duplo

Autor: Dostoievski, Fiodor

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Opinião

O Duplo é um dos primeiros livros escritos por Dostoievski, que revela já o estilo próprio desse autor que tem o seu auge nos chamados grandes romances, como Crime e Castigo, O Idiota, Os Possessos e Os Irmãos Karamazov.

Neste pequeno livro, Dostoievski revela já toda a sua arte na escalpelização psicológica completa de um personagem, fazendo sentir na nossa própria pele todas as suas questões, angústias e comportamentos, como só ele sabe fazer. Neste romance, Dostoievski, a partir do retrato de um funcionário público da época, com as suas pequenas ambições e invejas, cria um duplo desse mesmo personagem e coloca-o a interagir com ele, assumindo esse personagem (duplo) um comportamento quase complementar dele próprio, rivalizando com ele e ridicularizando-o em todas as ocasiões em que tal se proporciona.
Desta forma, o personagem, através dele próprio ou do seu duplo, interage com a sociedade onde se move(m), expondo a nu todas as subtilezas do relacionamento e influências dentro dessa mesma sociedade.

Todo o diálogo interior que o personagem principal faz com ele próprio, antecipando muitas vezes o que quer dizes, refutando-as logo de seguida muitas vezes, com comportamentos algo imprevisiveis, tanto seus como do seu duplo, e a interacção com este último, em que nunca consegue estabelecer um diálogo verdadeiro e conclusivo com ele faz deste romance uma obra intrigante e extremamente interessante, com episódios a raiar o irreal mas nunca perdendo o contacto com a realidade da ambiguidade do relacionamento das pessoas umas com as outras e com elas próprias.

Para quem já leu Cadernos do Subterrâneo, do mesmo autor, traça facilmente um paralelismo entre a angústia do personagem principal do Duplo e o personagem principal da 2ª parte dos Cadernos, na medida em que, quanto mais estes se esforçam em melhorar e limpar a sua imagem perante os seus semelhantes, mais se ridicularizam a eles próprios.

Apenas um último comentário: é o único romance de Dostoievski, dos muitos que já li, em que aparece uma personagem ficcionada, isto é, alguém que é irreal, mas de carne e osso, dentro da própria história, algo singular no estilo de Dostoievski.

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