Opinião
O livro Da mão para a boca (que, segundo o mesmo nos esclarece, nasce duma expressão corrente, da escrita como ganha-pão) é tanto mais curioso, após leitura das outras obras e do aclame internacional que hoje o autor dispõe.
Múltiplo, encerra várias estórias.
A primeira, auto-biográfica, relata o período em que após a decisão de escrever se vê a braços com as consequências económicas, sobretudo, da mesma; após alguns empregos da juventude, Auster decide dedicar-se por completo á escrita; tudo descrito delata inteligência, humor e cumplicidade.
Seguem-se os projectos "trancados na gaveta": um jogo de cartas que imita as regras do beisebol, duas peças de teatro (um notável autor nesta área!) e um policial (todo o bom romance é na sua essência um policial, enunciava Borges).
Excerto
"Não vou defender as escolhas que fiz.Se não foram
prácticas,a verdade é que eu não queria ser práctico.O que eu queria era experiencias novas.Queria sair para o mundo e põr-me á prova,saltar de uma coisa para a outra,explorar o mais que pudesse.E desde que mantivesse os olhos abertos,achava que,independentemente do que me acontecesse,isso seria útil e ensinar-me-ia coisas que nunca conhecera antes.Isto poderá parecer um procedimento um bocado antiquado,e talvez tenha sido.Jovem escritor despede-se da família e dos amigos para descobrirde que é feito.Para o melhor ou para o pior duvido que qualquer outro caminho tivesse sido conveniente para min.Tinha energia,uma cabeça fervilhante de ideias e pés ansiosos por andar.Dado o tamanho do mundo,a última coisa que desejava era jogar pelo seguro.