Opinião de Leitura
Molloy Molloy

Autor: Beckett, Samuel

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Opinião

Não é fácil suportar o absurdo.
Molloy não se consegue explicar porque ele próprio nunca se encontra: é esta a principal razão porque nunca ficamos com uma ideia de conforto na nossa relação com Beckett.

Ele parece expôr-nos face à própria existência; com uma aridez tal que passamos uma primeira fase a desejar alguma congruência, mesmo que falsa. Haverá maior espelho para os cegos que não suportam a ideia de ver?

Molloy relata-se e apenas transmite uma insensibilidade que seria desencanto se nos permitisse pensar que já houvera encanto. Não parece que tenha havido - a vida em Molloy é árida e absurdamente descrita: por que insiste e investe Molloy no que nunca é nomeado e na sua indiferença?

'Molloy', o livro, avança; mas Molloy só existe, nada mais.
Não está ali para nos contar nada - fá-lo. Não lhe sentimos qualquer 'drive', como à maioria dos personagens ou autores que nos levam por uma história ou por um relato adentro ou fora. Molloy pergunta-se, nós perguntamo-nos mas faz-nos sentir que não vai esperar pelo esboço de uma resposta.

O grande paradoxo é este: quem consegue perguntar está vivo e quem está vivo e pergunta pára para chegar a uma resposta ou para apreciar o que formula. Molloy não pára: não a tenta nem se tenta. Não espera nada de si e muito menos do leitor.
Tudo é descrito porque existe ou porque tudo é apercebido; mas isso não faz de nada algo de suficientemente importante para uma última oportunidade.

Cada frase é uma frase, última em si mesma e primeira numa sequência de frases vizinhas. Como Molloy, cada ideia convive perfeitamente com as outras que vai encontrando mas não lhes estranha a ausência. O encadeamento não está ao serviço de nada que não seja a proximidade da representação das coisas. Por vezes essa proximidade é tão desarmante que chegamos a pensar que nem sequer se trata de representar o que quer que seja, apenas algo de muito parecido com a coisa-em-si.
Molloy parece vazio mas suspeitamos (apenas) que pode facilmente não o ser. Interrompe-nos no nosso desejo de encontrar - uma resposta, qualquer satisfação à angústia de perguntar.

Algumas páginas após o início encontramo-nos estranhamente no estado já semi-comatoso e incrédulo de quem presencia um personagem desprovido de desejo (futuro) e com uma memória (passado) tão estilhaçada que - se resistimos à improbabilidade de assim poder ser-se - mais parece não poder existir (não acreditamos nele, não o consideramos plausível: Molloy não é livre e parece sabê-lo, nós estamos presos mas nunca o admitimos).

Molloy abjura a cartilha do personagem à procura de um leitor, da ideia à procura de quem a pense.

Quando o suportamos melhor e finalmente deixamos de esperar alguma coisa, na sua solidão irremediável somos Molloy e ganhamos o direito de ir sendo.

Na segunda parte do livro, Beckett volta a jogar com a nossa risível tendência para a ordem: introduz Moran, uma personagem de Molloy (?), um desdobramento de si.

Molloy procura a mãe (procura-se na origem) e só encontra um lugar vazio. Moran procura Molloy (procura-se no outro que é ele mesmo). Nunca o encontra apesar de se poder ter cruzado com ele (consigo?).

Procuramos Molloy por todo o livro e nunca o encontramos. Mas como poderemos encontrar alguém quando nos recusamos a perguntar-lhe quem somos?

Excerto

E quando digo, Pensava isto e aquilo, ou quando falo de uma voz interior que me diz, Molloy, e depois uma bela frase mais ou menos clara e simples, ou quando me vejo na obrigação de emprestar a terceiros palavras inteligiveis, ou quando em proveito de outrem saem da minha boca sons articulados mais ou menos convenientemente, mais não faço do que me sujeitar às exigências de uma convenção que nos ordena que mintamos ou que nos calemos.

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