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Simone de Beauvoir escreve sobre a morte da mãe. Todo o processo de despedida e de luto quando a morte se prolonga e arrasta muito dos vivos, com ela.
2ª edição
Excerto
Queríamos distribuir recordações às pessoas da sua intimidade. Diante do saco de palha, cheio de novelos de lã e dum tricot inacabado, diante da sua pasta, das suas tesouras, do seu dedal, a emoção submergiu-nos. É sabido o poder dos objectos: a vida petrifica-se neles, torna-se mais presente que em nenhum dos seus instantes. Jaziam sobre a mesa, órfãos, inúteis, esperando transformar-se em coisas sem préstimo, ou encontrar um outro estado civil: o meu estojo, que herdei da tia Francisca. Destinámos o seu relógio a Marta. Ao tirar o cordão preto, Poupette pôs-se a chorar: «É idiota, não me sinto fetichista, mas não posso deitar fora esta fita. —Guarda-a». É inútil pretender integrar a morte na vida e conduzirmo-nos de maneira racional em face duma coisa que o não é: que cada um se desembarace à sua maneira na confusão dos seus sentimentos. Compreendo todas as últimas vontades, e também que não se tenha nenhuma; que se apertem nos braços as ossadas, ou que se abandone o corpo amado à vala comum. Se a minha irmã tivesse querido vestir a mamã ou desejado guardar a aliança, teria admitido as suas reacções tanto como as minhas.