Opinião
A acção do livro tem lugar na grécia antiga e é o diário de um mercenário que perde a memória devido a uma ferida durante uma batalha. A sua memória dura apenas 24 horas e como tal tem que manter um relato escrito para conseguir algum controle sobre o que lhe acontece.
Gene Wolfe tem um conhecimento profundo da história, religião, língua e hábitos da época. É uma delícia vê-lo conjurar tanta erudição para um enredo que, precisamente por estar tão bem suportado por ela, quase a dispensa.
Latro, o narrador, é um estrangeiro que apenas por acaso fala a língua dos helenos e que sofre de amnésia. Como tal, tudo para ele é estranho, tal como para o leitor que se vê confrontado com um tempo histórico como se fosse uma realidade fantástica. Para isso contribui também o facto de Latro, punido pelos Deuses com a sua amnésia, é por outro lado compensado com a capacidade de os ver assim como aos centauros, ninfas e fantasmas que populavam a grécia nessa altura.
O livro flui assim como uma narrativa algo próxima de um sonho, onde o mundano e o divino se misturam, onde as personagens raramente são o que parecem e onde o tempo perde significado. Muitas vezes Latro recomeça o seu relato sem ter lido o que escreveu para trás e volta a descrever as mesmas personagens, mas sob uma nova perspectiva, algo que só é possível a alguém com o seu tipo de amnésia. O seu julgamento moral (e por vezes até físico!) das personagens é extremamente afectado pelas limitações da sua memória e o leitor é desafiado constantemente a reavaliar a história e as suas personagens, desmontá-las e extrair o sentido que achar possível.
Nesse aspecto, este livro é um Gene Wolfe típico, na medida em que o narrador não é credível e deve ser o leitor a desmontar a narratíva e pesar toda a informação que lhe é dada para poder chegar ao verdadeiro cerne da história, que é constantemente velado e desvendado. Mas o que é verdade e o que é mentira? O que é real e o que é fantasia?
Neste aspecto, este talvez seja o livro de Wolfe que mais directamente aborda essa temática, devido à natureza amnésica do narrador que é obvia para o leitor. Mas também "O livro do novo sol" (ver "A sombra do Torturador") depende deste artifício, embora no extremo oposto: Severian, o narrador de "o livro do novo sol", refere constantemente a sua memória absoluta, o facto de conseguir sempre evocar ao pormenor o seu passado. No entanto, o leitor atento irá descobrir os erros na sua narrativa e descobrir que mesmo a memória "perfeita" não conta a verdade absoluta.
Postos lado a lado "Latro in the mist" e "O livro do novo sol", Latro e Severian, são um par que se completa, o preto e o branco. A amnésia constante, a memória perfeita. O passado histórico e a fantasia futurista. E no entanto permanece a constante interrogação: que diferença há entre estória e História? e onde está a verdade? E, mesmo que a encontremos, será possível reconhcê-la?
Comentários
"Soldado da Névoa" é o primeiro de dois volumes. O segundo ("Soldier of Arete")nunca foi traduzido para português, como é costume... Existe em inglês uma edição dos dois volumes em um sob o título "Latro in the mist".