Opinião de Leitura
Um Homem: Klaus Klump Um Homem: Klaus Klump

Autor: Tavares, Gonçalo

Leitor:

Opinião

Um Homem: Klaus Klump é a história de um homem que passa por uma guerra, um homem de pensamento, que se transfigura completamente face à frieza dos acontecimentos, voltando à condição de homem normal após esta ter terminado. Mas não só. Existe um elemento de macabro em tudo o que acontece, na acção, nos momentos súbitos e inesperados que reflectem que nem sempre o pensamento domina o homem, que este, principalmente em circunstâncias extremas, se guia mais pelo instinto do que pela razão, e muitas vezes o instinto ultrapassa o próprio sentimento. Tal revela-se não só na personagem principal, como em muitas outras, em especial em Herthe, autêntico camaleão de adaptação fria e calculista consoante as circunstâncias em que se encontra, revelador do extremo a que um ser humano consegue chegar dentro do seu egoísmo de puro instinto de sobrevivência de animal, e, em particular, de animal social.
Gonçalo M. Tavares tem uma escrita peculiar, de tiradas curtas mas muito objectivas, parecendo uma escrita fria, nua, mas recheada de aforismos e de pensamentos, que servem de introdução ou mesmo desenvolvimento de todas as passagens de acção narrativa - fá-lo de uma forma natural, conjugando perfeitamente as ideias, algumas delas muito bem trabalhadas (uma dissertação sobre o som não-humano, outra sobre o conhecimento e a acção, outro sobre o humano e o animal, etc), dando a sensação que este pequeno livro poderia ser bem mais longo se Gonçalo M. Tavares o quisesse, pois condensa-o no seu estilo resumido extremamente eficaz.
Este romance é também o exemplo de um romance que se nota cada vez mais trabalhado ao longo da leitura do livro, cada vez mais cativante, e termina de forma brilhante. Um fato bem acabado, como se costuma dizer.
Notam-se algumas semelhanças entre a escrita de José Luís Peixoto em A Casa na Escuridão e este livro. O fatídico desenrolar do destino, em que o homem é parte integrante neste, agindo mas sem poder fugir a ele, num ambiente de doce crueldade, situações semelhantes de brutalidade normalizadas justificadas pelo momento em que são vividas, a angústia de descontrole face a si próprio. Diferenciam-se na abordagem poética usada por Peixoto, que Tavares "substitui" por uma envolvência mais objectiva e acutilante, com o pensamento nu e cru (do narrador), bem trabalhados, na situação e momentos certos, com uma maior diversidade e abrangência das temáticas abordadas.

Publicidade

Publicidade

© Copyright 2003-2025 Citador - Todos os direitos reservados | SOBRE O SITE