Opinião
Um clássico americano sempre actual, sobretudo nos dias de guerra e de terror que algumas partes do globo vivem. Baseado na experiência verídica de Greene, “O americano tranquilo” mistura amor, sofrimento, solidão, velhice, guerra, idealismo, real politik, e demais nojos que inventámos para salvar o mundo das tiranias e opressões. Mas a guerra, ainda que omnipresente em todo o desenrolar da história, é um pretexto também para uma comovente história de amor.
A acção passa-se no Vietname dos anos 50, ainda antes da intervenção dos americanos e relata-nos a história de um velho correspondente de guerra inglês apaixonado por uma jovem de Saigão.
Escrito na primeira pessoa, de uma forma quase jornalística, este livro de Greene é um acutilante retrato de um mundo em que se confrontam os valores ocidentais versus orientais, a juventude/ a velhice, o idealismo / cinismo.
Excerto
"A morte era o único valor absoluto do meu mundo. Perdendo-se a vida, nada mais se podia perder em todo o sempre. Invejava aqueles que conseguiam acreditar num deus, e não confiava neles. Sentia que conservavam a coragem com uma fábula sobre o imutável e o permanente. A morte era muito mais certa do que Deus, e com a morte acabava-se a possibilidade do amor poder morrer de um dia para o outro."
"Estar apaixonado é ver-se a si próprio como a outra pessoa nos vê, é estar-se enamorado de uma imagem nossa, falsificada e engrandecida. Em coisas de amor somos incapazes de honradez: o acto de coragem nada mais significa do que representar um papel para uma audiência de dois espectadores".
"Mais tarde ou mais cedo somos forçados a fazer escolhas se queremos manter-nos humanos"
"Não podemos culpar os inocentes, eles nunca têm culpa. Tudo o que podemos fazer é fiscalizá-los ou eliminá-los. A inocência é uma espécie de loucura".
"Sentada no chão uma mulher amparava no colo os restos do seu filho: por uma espécie de modéstia, cobria-o com o seu chapéu de palha de camponesa. Estava imóvel e silenciosa".
"o sofrimento não aumenta com o número: um só corpo pode conter todo o sofrimento sentido pelo mundo"
"E é assim sempre: quando fugimos para o deserto o silêncio grita-nos aos ouvidos"