Opinião
Um, Ninguém e Cem Mil é um livro que explora por completo a volatilidade do nosso «eu» e da nossa personalidade, é quase um ensaio sob a forma de romance, extremamente bem conseguido na forma como, numa linguagem acessível, nos leva a explorar dúvidas filosóficas (ou melhor, existenciais) acerca de nós próprios; de quem somos, afinal, para nós próprios e para os outros. Longe de ser um livro aborrecido, não obstante a descrição que fiz, torna-se hilariante pelo percurso de auto-destruição ou revelação que o personagem principal, Moscarda, faz a si próprio.
Tudo começa com a descoberta, de Moscarda, por interposta pessoa, de que uma das suas narinas está ligeiramente mais descaída que a outra, algo que ele nunca se tinha apercebido na sua vida, levando-o a suspeitar que esse facto poderia ter uma grande influência na forma como as pessoas olhavam e falavam com ele (por se distrairem com essa pequena característica, não sendo levado a sério naquilo que poderia querer dizer, ou ser interpretado de outra forma). Este pormenor foi o gatilho para que começasse a descobrir uma série de outros pormenores, chegando à conclusão que, afinal, cada uma das pessoas que o conheciam tinha uma imagem diferente dele, e que ele próprio, na realidade, não sabia que imagem dava aos outros.
E o mesmo se passava com as outras pessoas. Afinal, num encontro de 3 pessoas, A, B e C, não eram 3 pessoas que se encontravam, mas sim 9, uma vez que: A tem uma imagem de B, C e de si próprio diferentes das que B tinha de A, de C e de si próprio, por sua vez diferente das que C tinha de A, de B, e de si próprio. Instala-se a grande confusão. O nosso "herói" envereda numa senda, em que, até às últimas consequências, tem que se livrar das dúvidas, e das "imagens" que os outros têm de si.
O romance tem imensas passagens que valem por si próprias, autênticas pérolas que se lêem e nos deixam a pensar, passando as dúvidas existenciais de Moscarda para nós próprios.
É difícil encontrar um romance como este, que consegue, tão bem e de forma tão perfeita, sem nos entediar, lançar-nos numa reflexão divertida acerca de nós próprios. Por isso não tenho dúvidas em considerá-lo um dos melhores livros que já li na minha vida.