Opinião de Leitura
A Mancha Humana A Mancha Humana

Autor: Roth, Philip

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Opinião

As múltiplas visões sobre uma mesma pessoa, sobre uma mesma personalidade, aparentemente consistente de acordo com determinado padrão de comportamentos, mas que, com um elemento adicional que não encaixa, distorce completamente a imagem que se tem dessa pessoa, levando-a de estereótipo em estereótipo, mas nunca se identificando com o ser único que cada pessoa é.
Esta frustrante sensação que todos sentem, mas dos quais todos somos culpados, alimentando cegamente essa mesma imagem estratificada e redutora da sociedade, com todos os preconceitos inerentes, é o retrato nú e crú da sociedade actual, magnificamente descrito neste romance passado na América dos anos 90.
Uns fogem aos estereótipos que sobre eles foram criados, Coleman Silk e Delphine Roux, outros fazem questão de serem identificados com estes, Faunia e Les Farley, apagando ou tentando apagar todas as pistas que podem levar a que sejam vistos como pessoas diferentes ou iguais aquilo que são ou representam.
Porém, por mais purificados que queiram ser, a mancha humana permanece sempre, indelével, levando-os a confrontar-se consigo próprios, e por vias que nunca imaginariam seguir, mas que o destino, qual sombra fatal, torna todos os acontecimentos normais e assustadoramente humanos, na medida em que, além de ninguém conhecer realmente os outros, também ninguém se conhece realmente a si próprio.

A Mancha Humana é a história de um homem, Coleman Silk, que foge às suas raízes, procurando ludibriar o seu passado que lhe agrilhoava os planos de vida, tornando-se professor e reitor na Universidade de Athena. No final da sua vida, o seu impecável percurso académico é manchado por uma acusação de racismo. Demitindo-se da Universidade, e após a morte da sua mulher, tem uma relação com uma outra mulher, Faunia, com metade da sua idade, ex-mulher de um veterano do Vietname, Les Farley. No entanto, Delphine Roux, uma das principais figuras no processo movido pela Universidade contra o ex-reitor, continua a seguir-lhe os passos.
Nathan Zuckerman é o narrador-personagem deste romance, fazendo a ponte entre a construção das vidas e motivações destas personagens, contrastando-se a si próprio com a aparente juventude de Coleman, levando-o a reflexões sobre a sua vida de eremita desde a sua operação à próstata.
Cada personagem com as suas diferentes motivações para a construção de uma imagem que pode ou não corresponder ao que a sociedade espera destes, todas diferentes e extremamente ricas na diversidade das suas angústias perante a existência.

A escrita de Philip Roth é bastante entusiasmante, na medida em que o romance, começando com o caso de acusação de racismo a Coleman, vai-se desdobrando de forma natural pelos seus vários personagens, tomando o foco em cada um deles em separado, descobrindo-lhes aos poucos os seus segredos e o seu passado, montando com serenidade o puzzle ao qual, no final, não falta uma única peça. O arrepiante desenlace, a descoberta de todos os segredos de Coleman, a sua incessante procura da identidade, contraditória na sua aparência, mas consistente no cumprir da sua realização plena como ser humano.

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