Opinião
Li, num sopro, o livro "Viagem ao Coração dos Pássaros", o segundo romance de Possidónio Cachapa, edição Assírio & Alvim.
Este romance, o menos querido dos críticos - recordo que Possidónio Cachapa tem três romances publicados -, empreende um caminho diferente dos outros dois. Enquanto "A Materna Doçura", o primeiro, e "O Mar por Cima", o terceiro, se debruçam sobre a condição humana sem fantasiar o absoluto, sem metafísicas religiosas nem da índole dos espíritos, "Viagem ao Coração dos Pássaros" remete-nos para um universo único mas sempre repetível no tempo dos seres humanos.
Nos Açores, Evangelina e Kika, têm por destino vidas marginalizadas, mãe e filha, puta e milagreira, as personagens assumem contornos de horror e temor, sem nunca haver necessidade de abordar qualquer deus, bastando ao autor os Anjos e os mortos não aceites no paraíso e, por isso, que deambulam pelos caminhos do pó..
O conceito do espiritual neste livro é simples: o mal encerra o bem e o amor conserva o ódio; o bem é uma transferência do mal, o ódio um caminho para o amor.
Kika é uma menina que nasce do amor entre sua mãe e "a energia telúrica", que utilizava por fio condutor o corpo bem dotado de Filipe. Filipe pertence ao verbo partir e Kika assiste a esse adeus e viverá para sempre na sua ausência e no silêncio, poucas vezes quebrado. Kika é comunicativa, não se pense o contrário... e nunca é coitadinha.
Muitos homens morreram de amores por Kika. Muitos homens e mulheres a rodeavam para aprenderem sobre as curas da culpa e outros para se curarem dos males que ela aprendeu a atirar para longe, sem se dar conta "de que lixo é sempre lixo".
Um romance delineado sobre as rochas negras das ilhas e de um sentimento que cresce perto do coração.
Possidónio Cachapa presta-se a escrever os sons do falar açoriano, em que a revisão do livro raras vezes falha, oferencendo um certo humor a quem ignorante e distante, como eu, pensa no pitoresco e no exótico.
A fantasia do autor não poderia agradar aos críticos, é notória a necessidade, destes, de se crisparem para com ideias próximas de um xamanismo cristão. Terão pensado eles (o livro é de 1999) que notícias de charlatanismo e ambiguidades como a Nossa Sra da Ladeira se assemelham ao que está escrito neste livro?
Lanço o desafio para uma leitura, atenta e descomprometida com a sociedade, deste livro, que se pode adquirir por 5 Euro nas feiras de livro manuseado que agora abundam (e ainda bem).