Opinião
Um viciado em sexo que procura traçar um rumo completamente original na sua vida, incutido desde criança pela sua mãe, completamente avessa a todas as regras da sociedade e a todo o tipo de sentimentos, de que se serve, usa e abusa sem quaisquer escrúpulos mas com uma lógica e argumentos tremendamente lúcidos e eficazes, que o filho segue.
A loucura do sexo sem sentimento, mais as formas completamente loucas de ganhar o seu sustento, as suas visitas ao hospital para visitar a sua mãe, quase completamente amnésica e a recriar papéis novos para o seu filho a cada visita, o seu amigo masoquista que colecciona pedras para se livrar do vício da masturbação, o incrível desenlace do caso da enfermeira Paige, são ingredientes mais que suficientes para uma bem louca ficção cujo propósito é mostrar até que ponto sair dos carris "normais" da vida pode até ser muito salutar. O paradoxo da vida normal em face do paradoxo da vida anormal, e o anormal presente em todo o lado e em todas as pessoas que aparentemente têm vidas normais.
Há dois entraves a este romance, para quem os queira considerar como tal: o primeiro, mais inofensivo, é o começo muito insipiente da história, que não pode ser avaliada pelas primeiras 10 páginas, sob o risco de se colocar desde logo o livro de lado. É preciso dar oportunidade ao livro, este torna-se cada vez mais entusiasmante à medida que o vamos lendo. O outro, depende dos preconceitos de cada um: a banalização completa do sexo, o uso de termos e expressões ordinárias, a descrição de cenas de sexo e outras sem ter nada a ver com sexo mas particularmente ofensivas, podem tornar a leitura penosa ou mesmo muito desagradável a quem se impressione facilmente.
Mas não se pense que o romance tenha sido apenas construído com base nos nossos preconceitos morais e sociais. É a sua trave-mestra, é certo, mas nota-se, em particular, um certo estilo Samuel Beckett bastante bem utilizado pelo autor, fazendo inclusivamente lembrar Murphy, nas suas loucas divagações e experiências em busca da completa paz interior. È um romance original, sem sombra de dúvida, um romance que explora nos limites (e ultrapassando-os) o absurdo da marginalidade da vida, encontrando, contudo, o seu sentido, pois, como o autor defende, ou deixamos que o nosso passado decida o nosso futuro, ou decidimos o futuro por nós próprios, sendo nossa tarefa inventar qualquer coisa melhor que o mundo actual nos oferece.