Opinião de Leitura
Contos de Aleksander Púchkin Contos de Aleksander Púchkin

Autor: Púchkin, Aleksandr

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Opinião

Aleksander Púchkin é consensualmente considerado o fundador da modernidade literária da Rússia, por ter dotado os seus contemporâneos e, principalmente, as gerações que se lhe seguiram com um molde muito próprio, abandonando a subserviência literária aos franceses e aos seus 'rócócós' de linguagem.

Ao que parece, Púchkin serviu-se da linguagem popular russa para imprimir um estilo assumidamente "simples, lacónico e claro". Se esta foi a sua intenção, poderá facilmente compreender-se a importância que teve. Não é, essencialmente, por tal estética que os letrados russos até hoje mais se distinguem? Parafraseando Filipe Guerra, o estilo despojado de Púchkin é conseguido sem efeitos exteriores e com grande poética interior.


Aqui ficam algumas passagens de um conto inacabado, brilhante pela simplicidade duplamente assumida (pelo autor e pela personagem, um amante das letras que se propõe escrever a história de Goriúkhino, a sua aldeia) e pelo apuradíssimo sentido de humor, servido sem grande alarido:


"Conta-se que uma pastora apoucada mental guardava uma vara de porcos nas imediações de tão solitário lugar. Ficou prenhe e não pôde explicar satisfatoriamente a sua prenhez. A voz do povo acusou o diabo palustre; porém, tal fábula é indigna da atenção do historiador e, depois de Niebuhr, seria imperdoável acreditar em semelhante atoarda."

(dá para pensar nos 'assassinatos' que uma tradução pouco rigorosa e com analfabetismo etnológico poderia provocar a escritos destes)


"As mulheres são tão castas quanto belas: aos assédios dos audazes ripostam com severidade e eloquência."


E esta verdadeira pérola de humor, supostamente escrita por um historiador sério e objectivo:

"Por norma, os homens casavam-se aos doze anos com raparigas de vinte, sendo costume as mulheres baterem nos maridos durante quatro ou cinco anos. Depois, era a vez de os maridos começarem a bater nas suas mulheres; deste modo, ambos os sexos tinham a sua época de poder e assim se mantinha o equilíbrio."

in A História da Aldeia de Goriúkhino

"Contos de Aleksandr Púchkin", Relógio d'Água

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