Opinião de Leitura
A História de um Sonho A História de um Sonho

Autor: Schnitzler, Arthur

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Opinião

Um pequeno ensaio-romance sobre a questão do sonho, em sentido real e figurado, trocando-nos as voltas e levando-nos a interrogações freudianas sobre as motivações íntimas do nosso ser, tantas vezes enclausurado dentro de regras e formalidades que criamos para nós próprios, mas que, se não existissem, também não permitiriam termos uma vida minimamente consistente, construída sobre alicerces perenes que não nos permitiriam crescer de forma que pudéssemos, a partir destes, alcançar outras dimensões na nossa vida; e, por outro lado, essas mesmas regras, esses mesmos alicerces, funcionam como restrições para que possamos viver outro tipo de experiências que nunca poderemos ter sem abalar um pouco o nosso edifício; que neste caso, levando as nossas regras, conscientes ou inconscientes, ao extremo, transforma o nosso edifício em caixão existencial, levando-nos numa existência morna ao longo dos anos, levando-nos direitinhos e rapidamente ao final como se já estivéssemos mortos. A diversidade e novidade, com consequente criatividade, são motores essenciais ao estímulo vivencial que o nosso ser, espiritual principalmente, mas físico também, necessita para se sentir motivado e não entrar em decadência, numa espiral cada vez mais monótona, ditando o retrato do senhor fulano tal, que todos os dias faz isto e aquilo, e aos fins de semana outros, e um belo dia, «olha, o senhor fulano tal morreu», menos um elemento na paisagem, pois não mais que mero elemento paisagístico se tornou.

Voltando ao tema do sonho e ao livro propriamente dito, é-nos apresentado um casal, Fridolin e Albertine, pacato, de existência morna mas feliz (?), que um dia decidem de mútuo acordo contarem algumas coisas um ao outro, de episódios que aconteceram consigo próprios, de que o outro nunca suspeitaria. Atracções fugazes e sem nenhum desenlace comprometedor formam a base das revelações mútuas. Um pouco abalados, mas racionalmente seguros, acusam o toque, e tal abre a porta a outras experiências mais extremas e a roçar, de forma quase catastrófica, a linha do inconcebível, do improvável, mas que, porventura, correspondem muito simplesmente a outros possíveis potenciais estados de existência, inconscientemente desejados, ou talvez nem tanto, nunca eles vão saber isso, nem cada um deles acerca de si próprio, nem cada um deles acerca do outro.
Albertine tem um sonho, que até poderia ser real, que talvez o próprio inconsciente dela poderia desejar que fosse real; Fridolin vive uma experiência completamente rocambolesca, com imenso mistério e suspense, em que muitas vezes toca a fronteira do seu "proibido", sem contudo nunca a ultrapassar, talvez mais pelas próprias circunstâncias que pela sua própria vontade, algo que nem ele próprio chegará alguma vez a saber.
Albertine conta a Fridolin o seu sonho, que parece tão real, e que Fridolin leva tão a sério que o julga real, e Fridolin conta a Albertine a sua experiência, que Albertine toma, naturalmente, como um sonho, pois o seu sonho teve tanto de realidade como a realidade que Fridolin viveu teve de sonho. O desenlace do romance torna-se imprevisível aos nossos olhos até às últimas páginas, magnificamente concluídas pelo autor do romance.

O sonho pode ser realidade, e a realidade que vivemos pode até nem passar de um sonho. O que é de facto real ?

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