Opinião de Leitura
As Horas As Horas

Autor: Cunningham, Michael

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Opinião

Os melhores momentos da nossa vida, aqueles que realmente nos marcaram pela magnificência da sua beleza e eternidade, todos somados, não passam nunca de umas poucas horas, no desenrolar das poucas centenas de milhares de horas que dispomos na nossa vida. No entanto vivemos na ilusão inconsciente de conseguir encontrar ou voltar a encontrar esse mesmos momentos, sem nos apercebermos que, para os vivermos, temos que viver incontáveis milhares de horas de monotonia, dificuldades, esperanças perdidas, desejos nunca realizados e que isso é igual para toda a gente, independentemente do meio em que viva, na maior opulência ou na maior miséria, em todos os sentidos, em termos materiais e espirituais.
Esse é o tema principal deste romance de Michael Cunningham, que "usa" uma das escritoras que, provavelmente, melhor explora esse tema, integrando um dia da sua vida no seu próprio romance, destacando algumas das questões que atormentavam a sua existência. O romance passa-se em três planos distintos, que se complementam entre si: um dia na vida de Virginia Woolf, um dia na vida de Laura Brown, um dia na vida de Clarissa, espaçados entre si por cerca de 30 anos. O elo de ligação principal entre todos é o romance Mrs. Dalloway, de Virgina Woolf (livro cuja acção também se passa num único dia) que estava a ser escrito no dia de Virginia Woolf relatado neste romance, lido no dia de Laura Brown (cerca de 30 anos depois), e vivido no dia de Clarissa (cerca de 60 anos depois). Os capítulos vão intercalando o desenrolar do romance nos três planos de acção em paralelo, em que, aos poucos, tudo se vai ligando, com foco principal na tragédia ocorrida com o personagem Richard (que vive no mesmo plano que Clarissa), que acaba por ser a materialização de todos os desejos e angústias manifestados por Virginia Woolf, e que levaram ao suicídio desta.
Mais ligações existem entre os vários planos, mas que seria de mau tom reportar aqui, para que o potencial leitor não perca a magia deste romance.

As Horas revela um sentido muito apurado do sentir, da mais pura sensibilidade, do desejo sem tabus, vivido sem complexos, e a exteriorização dos mais delicados receios que todos os seres humanos têm, e que tantas vezes recalcam. A insegurança, o desconforto de viver dentro de determinados ambientes ou situações, e a beleza transcendental de momentos raros que são vividos na nossa vida, são tocados com uma beleza única, comovem-nos pela forma com que nos identificamos com as várias particularidades, excêntricas ou não, vividas por cada um dos personagens do romance. Até que ponto é que determinadas decisões que tomámos foram as mais correctas ? Será que há lugar ao arrependimento ? Talvez não, talvez não se deva falar de arrependimento, muitas vezes os momentos únicos que são vividos na nossa vida valem "apenas" por eles mesmos: não têm obrigatoriamente que ter uma continuidade, o facto de terem sido únicos e sublimes não quer dizer que seja por aí o caminho, uma vez que a unicidade desses mesmos momentos condenam-nos à sua morte, lembrados sempre com enorme saudade e nostalgia mas nunca como fonte de arrependimento.

Ainda, a questão se sermos este e não sermos outro, de querermos ter outro comportamento mas não o conseguirmos, de sermos alguém que está por trás de nós próprios, mas esse alguém sentir-se impotente para conseguir que nos portemos da forma que realmente gostaríamos de nos comportar. Somos sempre muito mais que nós próprios, e muito mais complexos do que nós próprios pensamos que somos, muito mais do que aquilo que cada um de nós mostramos uns aos outros. Paradoxalmente, ou talvez nem tanto, pouco significamos, o nosso desaparecimento, que julgamos causar grandes lacunas no meio em que vivemos ou junto dos que nos estão mais próximos, não passa de uma pequena lacuna que, em poucos dias, é rapidamente preenchida, mostrando assim qual é a nossa real importância, sempre muito menor que aquilo que nós pensamos que é, independentemente de quem somos, mostrando que a diferença entre o que nós somos e o que nós mostramos, é tão abissal quanto a diferença daquilo que pensamos que representamos no mundo e aquilo que realmente representamos.

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