Opinião de Leitura
A Máquina de Joseph Walser A Máquina de Joseph Walser

Autor: Tavares, Gonçalo

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Opinião

Joseph Walser é um homem normal. Um homem vulgar. Um homem que vive para o seu quotidiano. Um homem que passa despercebido. Um homem que vive quase como uma máquina num mundo de máquinas que dominam o homem.
Joseph Walser tem empatia com a sua máquina. A empatia é recíproca, conquanto Joseph cumpra a sua obrigação com esta. A dedicação é necessária, a dependência também. Quem depende de quem?

Joseph é, acima de tudo, um herói. Num mundo em constante mudança, em que muitos querem agir, são homens como Joseph Walser que mantêm o pilar base da sociedade, daqueles que não se deixam corromper e que fazem com que, não obstante qualquer revolução que ocorra na sociedade, esta volte à sua base, o viver do dia a dia num quotidiano de paz e sossego, numa quase apatia, o homem com o seu trabalho, o homem com os seus pequenos prazeres, rotinas, simples deveres e distracções.

Klober faz o elogio de Joseph. Critica-o quando vê que ele não se está a portar como o exemplo que deve ser, sempre igual em qualquer circunstância; ajuda-o a consolidar o seu pensamento, faz várias dissertações sobre a subjectividade da guerra, da memória, e da história, frutos de uma colecção quantas vezes aleatória de factos individuais, insuficientes e tendenciosamente ligados.

Não sendo Jospeh um homem de acção, ou, pelo menos, um homem de reacção (não será essa a causa maior da maioria das acções dos homens?), o pensamento e maneira de estar de Joseph é traduzido, paradoxalmente, pelas suas acções, consolidados pelos monólogos de Klober, que enobrece todo o modo de estar na vida de Joseph.
O verdadeiro herói é Joseph; é difícil saber o que é um grande homem, mas pode-se ser um homem único, e Joseph materializa e acarinha essa convicção através da sua própria colecção, única na sua natureza e forma de recolha, não vendo mais nenhum homem no mundo com uma colecção igual à sua.

Joseph é acusado de ser cobarde. Não há, contudo, homem mais valente que Joseph, o qual, com a frieza da sua indiferença consegue resistir ao facilitismo da acção imediatista, mantendo com fervor os seus hábitos rotineiros, inabaláveis, ou facilmente transaccionáveis por outros semelhantes.

É um pouco difícil resumir numa opinião um livro como este. Apesar de ter poucas páginas, as mútliplas dimensões que revela, quer a nível da exploração do carácter de Jospeh, quer a nível dos vários pontos de vista sustentados por Klober e magnificamente expostos nos seus monólogos, convidam o leitor a várias leituras sucessivas do livro, tal a concentração pura de ideias e reflexões sobre o Homem, a sociedade e a humanidade que estão presentes neste livro.

"A Máquina de Joseph Walser" é um digno sucessor de "Um Homem: Klaus Klump", do mesmo autor. Assim, enquanto que em Klaus temos um homem que se age e reage à guerra, envolvendo-se nos acontecimentos desta, mas voltando ao "normal" assim que esta acaba, em Joseph temos um homem que passa, de forma insensível, por esta. Apresentado um estilo muito próximo, e, sobretudo, muito original, Gonçalo M. Tavares presenteia-nos com autênticos tratados de reflexão sobre a condição humana.

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