Opinião de Leitura
Os Indiferentes Os Indiferentes

Autor: Moravia, Alberto

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Opinião

Uma pequena família, Mariagrazia e os seus dois filhos jovens adultos, Carla e Michele. Temos ainda Lisa, amiga de Mariagrazia e em tempos amante de Leo, tal como este já o foi de Mariagrazia e que agora tem um novo alvo, Carla. Um enredo com um cenário simples, cinco personagens, uma casa hipotecada e disputada por Mariagrazia e Leo, com muitas frustrações e sentimentos à mistura.

Os indiferentes são Carla e Michele, cada um a seu modo, mais inconformado Michele, supreendido constantemente por uma vida em que não se reconhece, que o perturba por não sentir o que os outros sentem - amor, ódio, ou qualquer outro tipo de sensações. Sempre deslocado, Michele interroga-se porque é que não sente vontade de agir e reagir da mesma forma que os outros o fazem perante as situações do dia a dia e os acontecimentos típicos da vida.

Com Carla tudo lhe é indiferente também, não com a angústia desesperada de Michele, mas deixando-se levar pelos acontecimentos, seguindo o sentimento conformista de que qualquer coisa é melhor do que a vida corrente que leva, embora não tenha ilusões e saiba que, mesmo que com grandes mudanças, nunca conseguirá mudar a atitude de indiferença perante a vida.

Indiferença de Michele e Carla perante a falsidade da vida, perante as falsas ilusões que esta oferece mas que não passam disso mesmo, consolidada pelo presenciar das histórias, acções e sentimentos de pessoas mais velhas que são exemplos reais de toda a falsidade e esterilidade da mesma.

Extremamente lúcido e mordaz, com um Michele muito próximo de um verdadeiro personagem dostoievskiano, angustiado mas bem vivo nos seus pensamentos e acções, completamente dominado pela sua indiferença, este romance de Moravia retrata, pelo extremo, aquele indiferença perante a vida que muitas vezes sentimos (ou pelo menos algumas) e que dissimulamos, aceitamos ou ultrapassamos - mas será que realmente a ultrapassamos, ou fingimos, ainda que inconscientemente, que a ultrapassamos ? Essa é uma das grandes conclusões de Michele, reconfortado na sua sensação de que, afinal, ele, que sempre quis ser sincero perante a vida, auto-recriminando-se constantemente por não o ser devido à sua indiferença, estaria a ser ingénuo e imaturo, uma vez que todas as outras pessoas não são tão sinceras como aparentam ser, e, provavelmente, são tão indiferentes quanto ele.

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