Opinião de Leitura
A Ilha dos Condenados A Ilha dos Condenados

Autor: Dagerman, Stig

Leitor:

Opinião

A Ilha dos Condenados é um romance negro. Um romance em que tudo é angústia existencial humana, e nada se salva, apenas a compreensão ou uma maior visão dos horizontes do absurdo que é a vida, vista por Stig Dagerman, através dos personagens que criou.

Um navio naufraga ao embater nos rochedos de uma ilha deserta, em que os sobreviventes não têm qualquer meio de subsistência, nem comida, nem água, excepto os escassos víveres que escaparam no naufrágio e que só dão para escassos dias. Cada um dos 7 sobreviventes tem a sua história, e, em particular, o seu trauma ou obsessão que condicionou toda a sua vida e que tem o seu expoente máximo na situação terminal em que se encontram na ilha.

Lucas Egmont, o personagem principal deste romance, com o trauma da culpa, desde que matou o seu cavalo, em criança, num galope forçado ao limite. Jimmie Baaz, um boxeur bem sucedido que seguiu essa carreira para fugir a si mesmo, mas que depois vive angustiado a fugir do seu sucesso, pois não se identifica com a imagem que as pessoas fazem dele. Tim Solider, um dos tripulantes do navio naufragado, que não se livra do trauma da obediência, o ser-escravo que se deveria revoltar mas não atraiçoar o seu semelhante. A "Senhora", mulher adúltera e leviana que foi condenada a ter um filho com traços de lagarto em virtude da sua imoralidade, constantemente perseguida pelo desgosto. Boy Larus, o aviador que aprendeu que não se podem mostrar as feridas que cada um tem dentro de si, e que vive obcecado com isso, sofrendo também do trauma da obediência. Draga, a jovem inglesa, traumatizada pelo pai, que a castiga violentamente por qualquer insegurança que esta manifeste, e com constantes sonhos que evocam a mãe falecida, idealiza que só se podem amar mortos e falecidos, pois estes não exigem nada em troca. Ernst William, o capitão, partidário da solidão, da solidão extrema como defesa ideal perante a vida.

O romance está magnificamente escrito, não se servindo o escritor de lugares-comuns, miserabilismos ou sentimentalismos vulgares, mas revelando sim uma grande imaginação para descrever, de forma fria, brutal, e sem qualquer esperança, as angústias dos seus personagens, com frequentes passagens ensaísticas sobre os mais diversos temas ligados ao absurdo da existência. Como linha mestra, a de que o absurdo da vida só pode ser vivido se vivermos os nossos absurdos, necessários para que se encontre algum sentido na mesma, mesmo que este conduza o ser humano à sua própria destruição.

Além de diversas pequenas reflexões sobre vários aspectos obscuros da existência de cada um de nós, traduzido pelos pensamentos e alucinações de cada um dos personagens, Lucas Egmont e Ernst William protagonizam, na segunda parte do romance, diversos diálogos/dissertações sobre a solidão, o simbolismo das nossas acções, o acaso como suporte da nossa vida, o medo como fundamento da consciência, a culpa, entre outros temas relacionados com a procura de uma explicação para os diversos absurdos da vida.

Em suma, um excelente romance para quem gosta do género, não muito recomendável a quem se deprima facilmente. Apesar de muito bem escrito, em que Stig Dagerman consegue transmitir toda a angústia desesperada e sem consolo de todo o ser humano, revela talvez a alma conturbada do próprio escritor, de acordo do que se sabe da sua própria vida, e da obra literária que nos deixou, marcada pelo seu suicídio ainda muito jovem.

Seria injusto terminar sem dizer que a "Ilha dos Condenados" não se trata de um conjunto de meras descrições gratuitas de angústias e pensamentos relacionados, mas sim de um verdadeiro compêndio de ideias, metáforas e paradoxos, excelentemente objectivados, que sem dúvida nos ajudam a combater os nossos próprios medos e a compreendê-los melhor, desde que o leitor saiba salvaguardar a devida distância entre aquilo que lê e a sua própria existência e a dos outros, tirando certamente ilações para uma melhor compreensão da existência humana.

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