Opinião
Gonçalo M. Tavares prossegue com este “A Máquina de Joseph Walser” a série que intitulou de Livros Pretos. À semelhança do “Um homem: Klaus Klump” a maldade humana continua a ser objecto de observação e de dissertação. Este novo livro podia bem ser mais um capítulo de uma mesma obra iniciada com “Um homem...”. É no mesmo cenário, na mesma guerra, até com os mesmos cadáveres que vamos assistir às deambulações de Joseph Walser, um homem que acreditava mais nas máquinas que nos homens. Mais, que acreditava que a felicidade estava nas máquinas: “A felicidade humana é um mecanismo”.
De frase curta e lapidar a roçar demasiadas vezes o aforismo, “A Máquina de Joseph Walser” acaba por ser um conjunto de reflexões de cariz filosófico que, na minha opinião, nem sempre fluem como um todo em termos literários. Se a receita havia funcionado na obra anterior, muito também pelo efeito surpresa e novidade, o mesmo não se passa neste livro que se cola demasiado ao anterior. Se calhar é essa a ideia do autor... Se calhar este livro não é para ser lido como um romance mas sim como um “poema-ensaio” a que se pode voltar sempre em busca de alguma pista para responder às inquietações que ciclicamente nos revisitam. É inegável a profundidade das observações de GMT, e são muitas as reflexões que nos fazem pensar mas estava à espera de mais em termos de narrativa. Aguardo pelas próximas obras para ver se se confirmará o entusiasmo que senti quando descobri o autor em “Um homem...”.
Comentários
Lidos do autor:
"Um homem: Klaus Klump"
"O homem ou é tonto ou é mulher"
"Sr. Valéry"
Excerto
“Ele não considerava justo que o Homem, apenas por conseguir reflectir sobre o mecanismo da sua existência, pudesse orgulhar-se de uma diferença absoluta em relação às máquinas. Conseguir distanciar-se de mecanismo que o constitui não faz o mecanismo deixar de existir. Uma existência humana era, assim, para Walser, um somatório simples.”