Opinião
Seymour Levov, conhecido como o «Sueco», é o epicentro de um romance que expõe as fragilidades de uma América que se ama ou se odeia, fruto da perseguição do sonho americano por várias gerações de imigrantes, com todos os seus ideais e crenças contraditórios, a lutarem pela sua felicidade e, principalmente, pela felicidade da geração seguinte. O Sueco é um caso de sucesso. Muito popular e muito bem sucedido na escola, principalmente devido aos seus sucessos desportivos, é um exemplo para a sociedade no final da segunda grande guerra, onde já não foi a tempo de participar. Digno sucessor do seu pai no negócio iniciado pelo seu avô, de fabrico de luvas, casado com uma linda mulher e com tudo para poder ter uma vida feliz, é o expoente do homem que ama a América e a quem nada pode correr mal.
No entanto, nem tudo está bem com o Sueco. Há algo de terrível na sua vida, que o corrói completamente por dentro durante anos e anos. Apesar de todo o seu sucesso, da sua natural bondade e compreensão com todos, irrepreensível em todos os seus comportamentos, atitudes e acções, cumprindo tudo o que lhe é exigível pela sociedade com verdadeiro empenho, vê surgir na sua vida algo de podre e negro, que, contrariamente a todas as expectativas alimentadas com sacrifício durante três gerações, vem fazer desabar por completo toda a sua vida e tudo em que acredita.
A sociedade americana, formada por uma mistura de povos oriundos de diversos países, diversas crenças, diversos ideais, antagónicos entre si mas fundidos num limbo de progresso e sucesso num novo país a explorar, acusa por fim a fragilidade da sua composição, gerando os mais diversos tipos de conflito, explodindo no surgimento das novas gerações de americanos num país já conquistado pelas gerações anteriores, que, alimentadas pelas suas crenças, ideais e dogmas, que eram o seu refúgio perante as dificuldades de uma nova vida e perante a expectativa do sonho, ruíram à face de uma nova geração, que, perante o presenciar do sonho americano cumprido pelos seus pais, acham absurdo os seus ideais e dogmas, procurando assim o seu próprio caminho; da mesma forma, a insegurança e incerteza estabelece-se nos seus próprios pais, vítimas do falso deslumbramento das suas vidas.
Mas este romance não é apenas sobre a fragilidade e falsidade da pastoral americana, a aparência de felicidade do americano médio que tem o seu expoente do dia de acção de graças; é, acima de tudo, sobre a angústia de um homem que vê desabar tudo à sua volta, embora tentando sempre compreender tudo e lutar até ao limite das suas forças para cumprir o sonho americano de uma vida feliz, uma família feliz, cumpridor do seu papel na sociedade.
É sufocante a história do Sueco, não apenas pela sua tragédia, como pelo que este constata da miséria existencial daqueles que o rodeiam, apesar de toda uma aparência de normalidade e felicidade. Página após página, capítulo após capítulo, vai-se aumentando o sufoco do Sueco em todas as espirais que se apertaram em redor dele ao longo da sua vida, com várias situações-limite em que o Sueco vê pôr em causa tudo aquilo em que acredita ou tudo aquilo que ele pensava ser - com discussões entre o Sueco e outros personagens, muito fortes, acutilantes e bem construídas, versando os mais diversos temas da sociedade americana e do 'bom' americano, chegando alguns a chocar, literalmente, os leitores mais sensíveis.