Opinião de Leitura
Diário do Farol Diário do Farol

Autor: Ribeiro, João Ubaldo

Leitor:

Opinião

O mais recente livro de Ubaldo Ribeiro é uma narrativa na primeira pessoa sobre a sua(dele narrador)própria vida. O indivíduo que nos narra a história é um ser completamente amoral, destituído de quaisquer remorsos e faz toda a questão de nos ir relembrando isso ao longo da história. Mas também não era preciso, basta o relato das suas acções para no-lo confirmar.


Depois das aventuras eróticas, a ultrapassar todos os tabus no campo sexual, do seu "A casa dos Budas Ditosos" Ubaldo Ribeiro volta ao registo provocador. Agora o Mal é o objecto da narração, atrevendo-se a quebrar as convenções e todas as noções de Bem e Mal.

"Diário do farol" pode ser muito incómodo e controverso pelas situações aí narradas. Somos confrontados com as nossas noções de certo e errado e leva-nos a questionar sobre as verdadeiras motivações das pessoas.

Nestas páginas voltamos a encontrar a escrita inteligente, irónica e sem meias palavras, ainda que temperada pelo português do Brasil que foi apanágio de "A casa dos Budas Ditosos" e, em menor grau, no "O feitiço da Ilha do Pavão".

Excerto

#1
A realidade é, sim, muitíssimo mais inacreditável do que qualquer ficção, pois esta requer uma certa arrumação falaciosa, a que a maioria dá o nome de verosimilhança. Mas ocorre precisamente o oposto. Lê-se ficção para fortalecer a noção estúpida de que há sentido, lógica, causa e efeito lineares e outros adereços que integrariam a vida. Lê-se ficção, ou mesmo livros de historiadores ou jornalistas, [b]por insegurança, porque o absurdo da vida é insuportável[/b] para a vastidão dos desvalidos que povoa a Terra.


#2
(…)
Desejo estragar, ou macular definitivamente, sua falsa felicidade, se você se ilude em tê-la. Minha esperança é que ela possa mirrar ou extinguir-se inteiramente, para que você veja o mundo como ele é, ou enlouqueça, ou morra, ou ambas as coisas, pois quase todos, insisto, sobrevivem apenas porque crêem que não são sozinhos. São, sim. Você é sozinho e permanentemente ameaçado, e somente um voluntarismo animalesco lhe faz ver o mundo de maneira diversa.

(…)
Solitários por nascimento, natureza, sentimento e vida, estou seguro de que os indivíduos têm uma curiosidade básica sobre a confirmação secreta da sua sanidade. E, mais ainda, praticam interiormente todos os atos loucos, mesmo os que lhe são na superfície mais repugnantes (…)
A maior parte se ilude, acreditando que não sentiria a emoção que levaria ao pensamento e deste à ação, mas não é verdade, porque cada um é tudo isso. Cada um de nós é isso e, se nos diferençamos na prática, devemos creditar ao acaso mais do que à deliberação o fato de nos comportarmos externamente de maneira considerada aceitável ou até elogiável. E por isso insistem tanto em negar que estão sós e assim se transformam em fantoches de valores que lhes impuseram com indispensável violência, pois a realidade (…) não se subordina a ordem alguma.

Publicidade

Publicidade

© Copyright 2003-2025 Citador - Todos os direitos reservados | SOBRE O SITE