Opinião
Os Anos é um romance que relata pequenos episódios furtivos dos membros de uma família inglesa durante cerca de 50 anos, a partir de 1880. Tomando como inicio de narrativa os últimos dias de vida da mãe dos principais personagens, ainda muito jovens, retratando o carácter de cada um deles, seguem-se pequenos capítulos espaçados no tempo, saltando vários anos de cada vez, focando em cada capítulo apenas uma ou duas horas da vida de um ou dois personagens do romance, não propriamente em momentos vitais das suas vidas, mas sim num qualquer acontecimento rotineiro do seu dia a dia.
Virginia Woolf faz um retrato muito detalhado da vida em Londres nesses tempos, das pequenas rotinas de cada um, com grande detalhe (quase fotográfico) de tudo o que os rodeia: os cenários e ambientes de cada momento, os pequenos gestos, atitudes e pensamentos de cada um, sempre em momentos completamente fortuitos das suas vidas. O romance é uma homenagem à vida na sua essência e realidade, na medida em que, tal como nós memorizamos muitas vezes os pequenos acontecimentos fortuitos por que passamos na vida, e não propriamente os maiores e melhores momentos, a história de cada um é muitas vezes mais significativa por esses pequenos momentos que inconscientemente e irreflectidamente nos ficam gravados na memória do que aqueles acontecimentos de vida comuns (nascimentos, mortes, casamentos, aniversários, comemorações, eventos especiais, etc), que, por acontecerem a todos segundo certos padrões, se tornam vulgares e mais característicos da nossa representação social (tantas vezes artificial) que da nossa identidade pessoal, de cada um de nós como ser humano.
Assim como no primeiro capítulo encontramos todos os personagens em torno de um evento comum (a morte da mãe), passadas mais de 300 páginas de acontecimentos fortuitos vamos encontrá-los novamente juntos num único evento, no final do livro. Aos personagens principais vêm-se juntar 2 personagens mais jovens dessa mesma família, que passam a ser a consciência crítica de toda essa sociedade e modo de viver narrados no resto do livro. Mas consciência crítica angustiada, não encontrando sentido nas vidas dos seus pais e tios, que, embora já não sejam assim tão jovens, ainda estão à procura do seu próprio caminho - aqui voltamos aos monólogos psicológicos e existenciais característicos de outros romances de Virgina Woolf, que, inexistentes ao longo de todo o romance, vêem a luz do dia neste confronto de gerações – os mais velhos, que já viveram tudo o que tinham a viver e se sentem em paz ou conformados com as suas vidas, iludindo-se o melhor possível com a vida feliz que tiveram, os mais novos que não encontram qualquer sentido nessa forma de felicidade mas que também ainda não encontraram a sua, considerando completamente oca e sem sentido a vida supostamente feliz que todos os outros têm, interrogando-se a si próprios, em desespero, a forma de dar maior sentido às suas vidas.
Mas saber viver é uma arte, e a felicidade não se persegue, esta simplesmente se sente como um amanhecer calmo com o sol a espreitar por entre as nuvens - dia após dia, ano após ano - tudo se atenua, tudo perde importância, e são aqueles pequenos momentos espalhados ao longo da vida e inconscientemente memorizados que ganham maior significado e tornam consistente toda uma vida de ilusão, apesar de toda essa suposta consistência auto-construída por cada pessoa não passar também ... de uma ilusão. Virginia Woolf igual a si mesma, grande na sua percepção da existência humana, que, parecendo desviar-se do seu estilo habitual nos outros romances, afinal apenas se desvia para nos fazer sentir com um impacto ainda maior a alma da sua escrita.